Eu
adoro essa onda feminista que está invadindo as redes sociais.
Estou
sempre a me emocionar com posts e vídeos, como um em que meninas e
mulheres escrevem em caixas de papelão brancas o que tiveram que
deixar de fazer por questões de gênero, e depois “destroem”
a(s) caixa(s). Mesmo que a proposta, na verdade, seja boba, algo como
uma vivência promovida em encontros de auto-conhecimento, o vídeo
tem apelos emocionais (bem básicos) – música comovente, ações
em câmera lenta e, no final, uma parede enorme de caixas sendo
derrubada por uma pequena menina negra – que te fazem chorar!
É
revigorante a ideia de que nós, mulheres, oprimidas violentamente
por séculos, enfim vamos poder viver na plenitude da nossa potência,
com liberdade, os nossos desejos e ideais! É algo catártico de tal
modo que não é preciso muito para gerar empatia e comoção.
E
aí mora o perigo. Me faz lembrar a onda de manifestações que
invadiu o país em 2013. Fiz alguns “inimigos” entre os meus
amigos esquerdistas e humanistas nessa ocasião. Quando eu afirmava
que era contra essa “histeria coletiva” em prol das
manifestações, gerava algo parecido com o que acontece quando digo
que gosto do Paulo Coelho ou do FHC (pois é, eu gosto, de ambos!),
mas com menos sorrisos (às vezes com nem um sorrisinho)… E a
indignação crescia quando eu explicava que achava que, ao
participarem de uma manifestação, as pessoas se redimiam de suas
obrigações como cidadãos conscientes e, felizes, voltavam para sua
rotina individualista e alienada, com a consciência limpa e a
sensação de dever cumprido. E continuavam a não saber em quem
votaram para vereador na última eleição…
Quantas
pessoas que participaram das manifestações contra o aumento do
ônibus em São Paulo (e depois em tantas outras cidades do Brasil),
acompanharam o desenvolvimento e, principalmente, o desdobramento e
consequências do não aumento? Na época, o Alckimin e, antes que me
xinguem, o próprio Haddad, afirmaram categoricamente que se aquela
receita não viesse das passagens, viria de outro lugar. Certamente
foi o que aconteceu, e os R$ 0,20 foram embutidos em algo menos
explícito e quem sabe muito mais prejudicial à sociedade, sem
causar qualquer alarde!
Política
é algo tão ridiculamente complexo, que devíamos ficar mais quietos
e estudar mais para poder cobrar por mudanças realmente
significativas. E quando uso a expressão “ridiculamente” é bem
de propósito. É ridículo como a burocracia foi se instalando, de
maneira sistêmica e sem culpados individuais, ao ponto de sermos
incapazes de acessar e compreender o funcionamento da nossa
sociedade, sem um esforço hercúleo! E também de modo a não
sabermos a quem recorrer para obter ajuda ou mesmo para cobrar
mudanças.
Em
cidade pequena a gente percebe isso com mais clareza. Dia desses
participei de uma conferência pública na minha atual morada, a
cidade de Bertioga, cujo objetivo era o Plano Municipal de Cultura,
já em fase final de elaboração. Diante do questionamento geral dos
presentes, em relação à garantia de que, ao virar Lei, o Plano
seria de fato posto em prática, os vereadores e demais
representantes do poder público responderam, grosso modo, que é
necessário que a sociedade fiscalize e cobre! Alguns mal escondiam o
subtexto: “antes de reclamar, vai se informar e participar!”.
Eu
achei que estavam certos e resolvi seguir o conselho. Comecei
tentando encontrar o orçamento do município para 2016, mas não
consegui. Estou tentando até agora. Inclusive, procurei ajuda das
próprias pessoas que me aconselharam a me informar, mas não a
obtive!
(E
no exato momento em que estou escrevendo esse texto, recebi de uma
amiga um documento atendendo à minha solicitação, com CENTO E UMA
PÁGINAS e muitos termos técnicos ininteligíveis!)
É
nessa hora que a gente desiste! Porque dá muito trabalho. Protestar
de maneira genérica, contra tudo e todos é mais fácil e
gratificante, pois é pontual e sempre encontramos vozes para
fortalecer o nosso discurso, mas garantir que algo seja feito para
uma mudança real, é difícil, demorado e cansativo.
Vejo
de forma análoga essa união virtual contra o machismo. É adorável,
comovente e catártico. Mas não promove mudanças. Ao contrário,
gera a ilusão do dever cumprido e isenta as pessoas de fazerem
coisas difíceis e trabalhosas que garantam um real questionamento,
algo que ataque a rede intrincada de impedimentos para chegarmos ao
centro causal do problema e não apenas se indigne contra falsos
efeitos periféricos!
O
verdadeiro machismo é invisível e sorrateiro. Se manifesta nas
nossas atitudes cotidianas, de forma implícita. E até em atitudes
tidas como feministas. Ações de grupos ativistas em prol da
descriminalização do aborto ou contra o abuso médico de
parturientes, ou em tantos outros exemplos de lutas justas para o
empoderamento da mulher são, muitas vezes, machistas, quando
transformam vítimas em inimigos a serem combatidos e acabam
ampliando a desunião e até a rivalidade entre as mulheres de um
determinado coletivo.
Também acho machista o sarcasmo com que algumas mulheres conclamam os homens a compactuarem com elas na luta contra o assédio. Ao postarem, por exemplo, um vídeo com uma “pegadinha” em que um homem em uma escada rolante acaricia a mão de outro que vai posada no corrimão da escada contrária, gerando em quem foi “assediado”, quase sempre, uma reação indignada e agressiva; Então, elas provocam: “aí o assédio é desrespeito, né?”.
Um
toque de mão é assédio?!! Do que se trata? Queremos o aval dos
homens ou de toda a sociedade para uma reação violenta e
preconceituosa diante de um toque de mão? Mais do mesmo: mulheres
que se dizem feministas pleiteando o direito de serem babacas como os
homens podem ser! Em vez de
lutarem
em prol do resgate e da
re-valorização do
PRINCÍPIO FEMININO
e, consequentemente, em favor do respeito às mulheres, na nossa
sociedade.
O
PRINCÍPIO FEMININO (e não necessariamente A MULHER) acolhe, cuida e
se submete. Aceita e se resigna. É biológico! Se você já gerou um
bebê em seu ventre e depois o amamentou em seu peito sabe o
significado e a importância vital dessas palavras. E se você
observa a deformação constante dos processos da maternidade,
visando a redução máxima do tempo dedicado ao outro, no caso, ao
feto/bebê, e também ao desaparecimento das características
maternas – ah, se fosse possível! - então você sabe o quanto
essas palavras, os conceitos a elas atrelados e as práticas que
geram os conceitos ganharam um sentido pejorativo e até aversivo na
nossa sociedade!
E
antes que esse texto seja reduzido ao parágrafo anterior e jogado na
lixeira do seu computador, juntamente com os textos da Fernanda
Torres, mas sem direito a respostas inflamadas, pois eu não sou
colunista da Folha de S. Paulo, sigo explicando: Se a necessidade
primitiva do acolher/cuidar/submeter-se/aceitar/resignar-se é
BIOLÓGICA, a manifestação simbólica dessa necessidade em uma
sociedade evoluída (sem juízo de valores, apenas no sentido
cronológico, ou seja, uma sociedade mais complexa em relação às
sociedades primevas) ultrapassa os limites de gênero. Não é
preciso ser mãe e nem mesmo ser mulher para entender o quanto esses
conceitos são imprescindíveis no nosso cotidiano social. Se você
já foi inferiorizado por um médico ou médica num momento de total
vulnerabilidade física e emocional, ao querer participar de forma
ativa do seu tratamento; se já foi ridicularizado por um professor
ou professora por expor sua ignorância e consequente desejo de
aprender o que lhe interessa e não o que as apostilas mandam; se
você já foi espezinhado ou ignorado por um político que você
elegeu ou por uma empresa que você contratou, ao reivindicar que os
contratos sejam cumpridos; se você, quando pequeno, já foi
maltratado em qualquer nível por um adulto de quem você dependia,
por não querer ter suas opiniões e desejos desconsiderados só por
ser uma criança; enfim, se você já foi hostilizado por alguém que
assumiu uma posição de poder quando deveria cuidar de você, então
você sabe o significado e a importância vital dessas palavras, que
foram ganhando conotação pejorativa nessa sociedade em que o
PRINCÍPIO MASCULINO se tornou o-único-potente e o-único-presente.
E
se você já passou por qualquer uma dessas situações é capaz de
compreender que a pior consequência do machismo para a nossa
sociedade não é o repreensível confisco dos direitos das mulheres,
mas antes a ridicularização e o rebaixamento ideológico do
princípio feminino, ao ponto de gerar o repúdio generalizado às
funções femininas. Funções essas que, em uma sociedade
ideologicamente positiva, podem ser exercidas livremente por homens
e/ou mulheres, de acordo com sua vocação e com sua afinidade com as
características do princípio feminino, obviamente presentes (mesmo
que hoje ausentes) em tais funções.
É
também nesse sentido, para além das restrições de gênero, que
podemos afirmar que ao feminino pertence a intuição. A capacidade
de se comunicar de forma sensível e delicada. E delicado, aqui, não
é sinônimo de frágil, é palavra irmã da palavra sutil. Numa
sociedade em que o princípio feminino está presente e empoderado um
toque de mão é bem-vindo (podendo ou não ser retribuído, em uma
cadeia de ações e reações que podem ou não levar ao sexo) e não
é considerado assédio! Pois os corpos se comunicam e as pessoas se
respeitam!
Numa
sociedade em que o princípio feminino é garantido e valorizado, as
mulheres não precisam repudiar, de forma massificada, as cantadas na
rua, não precisam justificar com hipocrisia que usam um shorts curto
porque está um calor de 40 graus (por favor, feministas, parem de
dizer isso!) pois podem afirmar sua sexualidade, seu prazer em serem
desejadas, sem temer que o desejo natural por alguém que se exibe
sexualmente (porque usar uma roupa sensual é uma exibição sexual,
e ter que mentir sobre isso para nos defendermos é que me parece o
mais grave!) se transforme em uma agressão, seja ela qual for,
verbal ou física, podendo até chegar a estupro e assassinato!
Numa sociedade em que o princípio feminino é sagrado, as pessoas estão unidas, as diferenças são abarcadas e ponderadas em busca de um convívio comum e harmonioso. Não há estímulo à competição. Não há abandono, exclusão, não há “escolhidos”. Não há manifestações de ódio.
Quando
o feminino reina, o amor prevalece – e o reino do feminino não
conhece o poder, portanto não se coloca acima do masculino. Se
devemos escolher uma luta feminista, que ela seja pelo resgate e
re-valorização do princípio feminino em nossa sociedade!
O melhor presente que poderia receber nessa data! Obrigada pelo texto!
ResponderExcluirObrigada por ser fem (êmea, inina, ista) e obrigada por me representar e apresentar de forma tão simples o que esse movimento deveria ser resgate e re-valorização do princípio feminino em nossa sociedade!
obrigada Erika, volte sempre!
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