“Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.”
Não adianta, eu nunca serei feliz!
Não é uma declaração decorrente de uma crise existencial clichê, das que venho arrastando
por anos a fio, em tom de constatação dramática de uma realidade que independe
da minha vontade. É uma decisão! Uma decisão sóbria.
A felicidade tem um preço que eu não posso pagar. Ela custa
a abstração total do estado de miséria que assola a humanidade. E quem abstrai
isso não pode mais viver a vaidosa fantasia patética de "fazer a diferença", segundo a sua subjetividade, e precisa, enfim, ceder ao impulso (esse
sim) verdadeiramente natural, de ser insignificantemente feliz!
Eu poderia ser muito feliz fazendo arte para mim e para a
pouca quantidade de gente desse mundo que realmente se
dispõe ao mergulho profundo e cheio de escuta e reciprocidade a que a experiência
estética nos expõe. Eu seria muito feliz, de verdade!
Eu poderia ser feliz
aderindo a uma comunidade de pessoas livres que se amam sem o peso bárbaro das
regras estranhas da nossa sociedade monogâmica e patriarcal. Eu seria
muitíssimo feliz!
Mas eu sou incapaz de me desfazer da culpa, esse asqueroso
legado pós-cristão (Cristo, mesmo o que está na bíblia, não me parece ter sido
um cara – se é que a pessoa, além do simbolismo, de fato existiu – que cultuou
a culpa... mas o que fizeram da sua morte, os marqueteiros daquele tempo até os
de hoje, nos custa esse peso atroz, que isenta as estruturas de nos policiarem,
já que nos vigiamos e punimos uns aos outros, o tempo todo).
Não me parece justo permanecer em um gueto cosmopolita,
mergulhada em poesia e estímulos estéticos, abraços, sexo livre e amoroso, quando
ali do lado – agora, no caso, aqui do lado, literalmente – tanta gente vive
confinada em um mal arejado cubículo de referências poéticas e estéticas, com mentes e
corpos deformados pela sucção integral do desejo de liberdade e das últimas
gotas de espontaneidade, rindo e chorando em coro diante de um infinito
restrito (o infinito entre o zero e o um) de coisas que lhes são permitidas
conhecer, sem nem sonhar com o infinito absoluto que existe fora da sua caverna-doce-caverna.
Elas não podem lembrar que é permitido sentir prazer. E que é pelo prazer que vivemos. Então permanecem crendo que o sofrimento é
natural: É parte de sua evolução espiritual. A dor cotidiana que carregam,
apesar dos inúmeros analgésicos físicos e emocionais que tomam, é nobre marca
de sua luta diária! As relações profissionais, de amizade, de sexo e de “amor”
são cheias de violência e rancor, pois todos vivem assim!
Não, minha gente, nem todos vivem assim! Há gente livre
nesse mundo! E não são monstros pecadores que vão devorar os seus filhos
imaculados e perverter o mundo gerando a destruição. Ao contrário. São
pessoas amorosas e éticas, empanturradas de respeito ao próximo. E eu preciso
dizer isso a vocês (e convencer a mim mesma), mesmo que estejam tão lobotomizados que não possam
vislumbrar nada parecido ao que eu estou falando! Não podem sequer enxergar o
que está esparramado diante de todo o seu ser: o seu corpo, sua mente e seu
espírito, enfim, o seu eu integral pede prazer! O que você quer é gozar com
todos os seus sentidos e em todos os sentidos! Você quer ver coisas belas, quer
escutar poesia, quer se sentir parte do mundo, quer ser acolhido, quer a sua
pele quente, quer que seu corpo seja tocado, que sua dor seja cuidada... você
quer amor e beleza! E no fundo sabe que quem vive essas coisas que você quer não
causa mal a ninguém! Mas se você aceitar isso... o que vai acontecer,
então? Você vai ter que deixar de ser a única coisa que conhece há muitas e
muitas gerações... e isso é a morte... e não queremos morrer (mesmo que
tenhamos tanta experiência em praticar a fé em uma vida no paraíso após a morte...)
E eu sei que você sabe de tudo isso, porque se eu sei você
sabe! Sem qualquer pretensão: eu sei, porque qualquer um sabe. Saber disso é
como saber respirar. É óbvio! É humano... ou melhor, é vital.
Mas você não quer olhar! Você sabe, mas não quer! E eu
sempre tive a maldita mania de falar alto, na mesa do jantar, sobre aquele segredo
tácito que a família toda se esforça em guardar, não uns dos outros, mas
cada um de si mesmo, através da não declaração pública da sapiência!
E eu não me calo, não posso ir lá ser feliz e deixar vocês
aqui sufocando por fingir não ver que é possível... se vocês continuarem fingindo, vou acabar acreditando... Se continuarem fingindo que sou eu a desequilibrada,
drogada, vagabunda e vocês os sensatos purificados.
Então, eu serei a santa libertadora! Serei Maria Madalena: me fazendo arrependida dos meus pecados pra ajudar algum Cristo a anunciar a boa nova-velha e libertar a humanidade...
Então, eu serei a santa libertadora! Serei Maria Madalena: me fazendo arrependida dos meus pecados pra ajudar algum Cristo a anunciar a boa nova-velha e libertar a humanidade...
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