Há dois anos encontrei uma carta
dentro de um livro velho e tive vontade de criar algo sobre ela. Em princípio
quis criar uma peça, mas não me movi para isso e o tempo passou e ela ficou
novamente guardada dentro de algum livro. Dia desses a encontrei e comecei a
transcrevê-la, com algumas licenças poéticas, sem me dar conta de que estava
terminando de fazê-lo um dia antes do dia internacional da mulher...
Minha cara,
Escrevo, primeiramente, para lhe
pedir perdão pela minha carta. Você tem razão. Eu não tinha o direito de lhe
dizer o que disse. Foi injusto. Mas o que posso lhe dizer é que minhas palavras
duras eram direcionadas apenas ao seu marido. Era do machismo dele que eu
estava falando. Mas não podia excluir você, pois estaria colocando vocês, um
contra o outro. E não era certo fazer isso.
Sei porque você se submete. Sou
sua cúmplice e apoio você. Não tem saída. Você é mulher. Além disso, você era uma
mãe solteira com três filhos de outro homem pra criar. Quem iria querer uma
mulher assim? Ele aceitou você e os seus filhos, você não tem o direito de
reclamar da opressão que sofre.
Quando você descobriu que estava
grávida dele, vocês não queriam – imagina, quatro crianças pra sustentar! – mas
era tarde para o aborto, e ele aceitou ficar ao seu lado, que homem bom ele é!
Agora tem, no mínimo, o direito de passar algumas noites bebendo com os amigos
(e também amigas, por que não?), enquanto você cuida dessa ninhada que ele aceitou
sustentar! (mesmo que suas costuras gerem mais renda do que o emprego dele, que
nunca é fixo).
Entendo que não é meu direito
cobrar que você não aceite os tabefes que ele lhe dá. Ele tem todo o direito de
mandar você fechar as pernas e calar a boca. Afinal, se você sair, se você
beber, se você fumar, se você meter!, quem vai cuidar da casa e da família?
Quem vai achar as luvas de boxe dele?
Ele está cansado e precisa que
você cuide dele. E você deve isso a ele! Eu sei.
Mas para encerrarmos essa guerra,
quero lhe pedir que pare de enviar bilhetes eróticos ao meu marido. Isso me
irrita. Não me irrita pelo conteúdo, mas porque eu amava você! Eu quis proteger
você! Na noite em que eu e o seu marido ficamos conversando até quase o sol
raiar, flertamos bastante, e eu disse a ele que você era muito especial, e que
ele deveria cuidar de você. Eu o desejei, eu fiquei muito seduzida pelo olhar
dele sobre mim, ele me queria, e não parecia estar preocupado com o fato de você
estar dormindo no quarto, enquanto conversávamos e nos tocávamos na varanda.
Talvez ele soubesse que você não acordaria facilmente, depois de ter passado o
dia todo cuidando de quatro crianças.
Sabe que nesse dia eu não transei
com o seu marido por sua causa? Por um tempo achei que tinha sido em respeito
ao meu marido, mas não. O meu marido é forte. Ele é desejado por muitas
mulheres e é livre para viver as relações que quiser. Além disso, seria uma
troca justa, já que tínhamos nos deleitado eu, você e meu marido, sem a participação do
seu, somente alguns dias antes. E também, meu marido sabe quanto o amo. Quanto
eu o quero e admiro, e o meu sexo não seria uma agressão a ele. Mas você é
frágil e dependente. E a falta de amor do seu marido por você é tão explícita
que facilmente explica o fato de ele se sentir deslumbrado diante de qualquer
paixão. Eu senti ódio dele por estar fazendo aquilo com você. E não tive
coragem de fazer o que o meu corpo pedia. Mesmo que depois mal tenha conseguido
dormir com a dor do desejo reprimido.
Mas na noite seguinte nos
encontramos, eu, você e seu marido. Era explícito o desejo de todos e que
estávamos livres para enfim viver aquele momento. E eu poderia explodir de
prazer. Mas no fim tive que fingir um orgasmo – eu, que não fingia um orgasmo
há anos! – enquanto você me tocava e me mantinha longe do seu homem. Não que eu
não tivesse prazer com o seu toque, eu teria! Ainda hoje a estimo – com muita
mágoa, é claro, mas ainda quero o seu bem...– enquanto pelo seu marido não
sinto nada. Mas fiquei tão triste em vê-la me privando de viver aquilo. Logo
você que tinha chorado nos braços do meu marido, bem diante dos meus olhos,
depois que ele a fez gozar. E eu fiquei distante, observando. Nem toquei em
você. Permiti que você vivesse aquele momento que era só de vocês, sem qualquer
interferência minha. Permiti que você fosse feliz! Logo você, que na noite
anterior eu tinha defendido de sofrer uma agressão, mais uma agressão, mesmo
que dessa vez não fosse física, ao não aceitar deitar com o seu marido na sua
ausência. Agora, com o seu consentimento, falso consentimento, eu estava ali,
diante daquele corpo de homem que eu desejara tanto e que você, ardilosamente,
me fez crer que eu poderia ter.
Nessa noite eu senti raiva de
você. Num momento em que você foi ver as crianças para garantir que todos
dormiam o sono dos justos, enquanto nós queimávamos em pecado, eu cochichei no
ouvido dele: “Você vai me visitar um dia em casa, só você, já que sua mulher
tem ciúmes de mim e não me deixa tê-lo!”. Mas depois não tive coragem de
levar a proposta a cabo. Principalmente sabendo que ele estava apaixonado por
mim. Eu também estava. Mas nunca o procurei. Pois olhando pra tudo a distância
eu entendia que você estava sofrendo com aquela paixão que ele sentia. Como
sempre algo mais interessante que você o puxava para longe de casa. Bruto homem
que não a via, tão linda e feminina e servil...
Então eu achei por bem me afastar
de você e do seu marido. Para poupá-la. E agora sinto muita raiva quando você
envia bilhetes eróticos para o meu marido. Convites ao sexo. Mesmo não estando
mais comigo, ele sempre me visita. Age como um cliente comum quando chega na
casa, penso que as outras mulheres nem sequer desconfiam de quem se trata, de
qual seja a nossa relação. Ele me mostra os seus bilhetes e zomba da sua
solidão e eu me compadeço de você, mesmo sentindo raiva por você não me
considerar, por você me desprezar ao ponto de tentar seduzir o meu homem para
me agredir. Quando eu sempre defendi você!
Por favor, pare!
Quanto à sua resposta à minha
carta que, como eu disse, era direcionada ao seu marido, me fez entender porque
as mulheres não gostam de mim. Eu já sabia o motivo pelo qual os homens, mesmo
me querendo, nunca me amaram. O meu sexo, o meu corpo e a minha voz são
libertários e explicitam a opressão a que eles submetem suas mulheres. Faz com
que lembrem que somos livres, tão livres quanto eles, e que se não exercemos a
nossa liberdade é por medo de sermos queimadas na fogueira e não porque
gostamos de nos submeter a eles... O meu
sexo sempre defendeu as mulheres, inclusive as mulheres que estavam sendo traídas
pelos seus maridos na minha cama. Quando saí de casa e me mudei para o
prostíbulo os homens passaram a me amar, pois o título oficial de puta me
diferenciava das outras, e não mais os agredia. Mas as mulheres continuaram me
odiando. E só pude entender isso agora, diante da sua resposta à minha carta,
que não era, como lhe disse no começo dessa missiva, direcionada a você, mas
somente a ele, mesmo que eu tenha me dirigido a vocês dois. Você me disse que
eu estava tendo uma atitude típica feminina, histérica e mimada, ao apontar o
machismo do seu companheiro. Eu sempre defendi as mulheres, e sempre fui tão
ingênua que nunca me dei conta de que elas já sabiam de tudo, e que não
precisavam que ninguém ficasse tentando revelar o que elas tinham tido tanto
trabalho em esconder, delas mesmas.
Desejo a sua felicidade e a sua
paz,
Espero que esse seja o fim das
batalhas,
Com afeto e cuidado,
M.
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