quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Complexo de Heroína Cristã!


“Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.”



Não adianta, eu nunca serei feliz!

Não é uma declaração decorrente de uma crise existencial clichê, das que venho arrastando por anos a fio, em tom de constatação dramática de uma realidade que independe da minha vontade. É uma decisão! Uma decisão sóbria.

A felicidade tem um preço que eu não posso pagar. Ela custa a abstração total do estado de miséria que assola a humanidade. E quem abstrai isso não pode mais viver a vaidosa fantasia patética de "fazer a diferença", segundo a sua subjetividade, e precisa, enfim, ceder ao impulso (esse sim) verdadeiramente natural, de ser insignificantemente feliz!

Eu poderia ser muito feliz fazendo arte para mim e para a pouca quantidade de gente desse mundo que realmente se dispõe ao mergulho profundo e cheio de escuta e reciprocidade a que a experiência estética nos expõe. Eu seria muito feliz, de verdade! 

Eu poderia ser feliz aderindo a uma comunidade de pessoas livres que se amam sem o peso bárbaro das regras estranhas da nossa sociedade monogâmica e patriarcal. Eu seria muitíssimo feliz!

Mas eu sou incapaz de me desfazer da culpa, esse asqueroso legado pós-cristão (Cristo, mesmo o que está na bíblia, não me parece ter sido um cara – se é que a pessoa, além do simbolismo, de fato existiu – que cultuou a culpa... mas o que fizeram da sua morte, os marqueteiros daquele tempo até os de hoje, nos custa esse peso atroz, que isenta as estruturas de nos policiarem, já que nos vigiamos e punimos uns aos outros, o tempo todo).

Não me parece justo permanecer em um gueto cosmopolita, mergulhada em poesia e estímulos estéticos, abraços, sexo livre e amoroso, quando ali do lado – agora, no caso, aqui do lado, literalmente – tanta gente vive confinada em um mal arejado cubículo de referências poéticas e estéticas, com mentes e corpos deformados pela sucção integral do desejo de liberdade e das últimas gotas de espontaneidade, rindo e chorando em coro diante de um infinito restrito (o infinito entre o zero e o um) de coisas que lhes são permitidas conhecer, sem nem sonhar com o infinito absoluto que existe fora da sua caverna-doce-caverna.

Elas não podem lembrar que é permitido sentir prazer. E que é pelo prazer que vivemos. Então permanecem crendo que o sofrimento é natural: É parte de sua evolução espiritual. A dor cotidiana que carregam, apesar dos inúmeros analgésicos físicos e emocionais que tomam, é nobre marca de sua luta diária! As relações profissionais, de amizade, de sexo e de “amor” são cheias de violência e rancor, pois todos vivem assim!

Não, minha gente, nem todos vivem assim! Há gente livre nesse mundo! E não são monstros pecadores que vão devorar os seus filhos imaculados e perverter o mundo gerando a destruição. Ao contrário. São pessoas amorosas e éticas, empanturradas de respeito ao próximo. E eu preciso dizer isso a vocês  (e convencer a mim mesma), mesmo que estejam tão lobotomizados que não possam vislumbrar nada parecido ao que eu estou falando! Não podem sequer enxergar o que está esparramado diante de todo o seu ser: o seu corpo, sua mente e seu espírito, enfim, o seu eu integral pede prazer! O que você quer é gozar com todos os seus sentidos e em todos os sentidos! Você quer ver coisas belas, quer escutar poesia, quer se sentir parte do mundo, quer ser acolhido, quer a sua pele quente, quer que seu corpo seja tocado, que sua dor seja cuidada... você quer amor e beleza! E no fundo sabe que quem vive essas coisas que você quer não causa mal a ninguém! Mas se você aceitar isso... o que vai acontecer, então? Você vai ter que deixar de ser a única coisa que conhece há muitas e muitas gerações... e isso é a morte... e não queremos morrer (mesmo que tenhamos tanta experiência em praticar a fé em uma vida no paraíso após a morte...)

E eu sei que você sabe de tudo isso, porque se eu sei você sabe! Sem qualquer pretensão: eu sei, porque qualquer um sabe. Saber disso é como saber respirar. É óbvio! É humano... ou melhor, é vital.

Mas você não quer olhar! Você sabe, mas não quer! E eu sempre tive a maldita mania de falar alto, na mesa do jantar, sobre aquele segredo tácito que a família toda se esforça em guardar, não uns dos outros, mas cada um de si mesmo, através da não declaração pública da sapiência!

E eu não me calo, não posso ir lá ser feliz e deixar vocês aqui sufocando por fingir não ver que é possível... se vocês continuarem fingindo, vou acabar acreditando... Se continuarem fingindo que sou eu a desequilibrada, drogada, vagabunda e vocês os sensatos purificados.

Então, eu serei a santa libertadora! Serei Maria Madalena: me fazendo arrependida dos meus pecados pra ajudar algum Cristo a anunciar a boa nova-velha e libertar a humanidade...





domingo, 8 de março de 2015

O dia da Mulher...

Há dois anos encontrei uma carta dentro de um livro velho e tive vontade de criar algo sobre ela. Em princípio quis criar uma peça, mas não me movi para isso e o tempo passou e ela ficou novamente guardada dentro de algum livro. Dia desses a encontrei e comecei a transcrevê-la, com algumas licenças poéticas, sem me dar conta de que estava terminando de fazê-lo um dia antes do dia internacional da mulher...


Minha cara,

Escrevo, primeiramente, para lhe pedir perdão pela minha carta. Você tem razão. Eu não tinha o direito de lhe dizer o que disse. Foi injusto. Mas o que posso lhe dizer é que minhas palavras duras eram direcionadas apenas ao seu marido. Era do machismo dele que eu estava falando. Mas não podia excluir você, pois estaria colocando vocês, um contra o outro. E não era certo fazer isso.

Sei porque você se submete. Sou sua cúmplice e apoio você. Não tem saída. Você é mulher. Além disso, você era uma mãe solteira com três filhos de outro homem pra criar. Quem iria querer uma mulher assim? Ele aceitou você e os seus filhos, você não tem o direito de reclamar da opressão que sofre.

Quando você descobriu que estava grávida dele, vocês não queriam – imagina, quatro crianças pra sustentar! – mas era tarde para o aborto, e ele aceitou ficar ao seu lado, que homem bom ele é! Agora tem, no mínimo, o direito de passar algumas noites bebendo com os amigos (e também amigas, por que não?), enquanto você cuida dessa ninhada que ele aceitou sustentar! (mesmo que suas costuras gerem mais renda do que o emprego dele, que nunca é fixo).

Entendo que não é meu direito cobrar que você não aceite os tabefes que ele lhe dá. Ele tem todo o direito de mandar você fechar as pernas e calar a boca. Afinal, se você sair, se você beber, se você fumar, se você meter!, quem vai cuidar da casa e da família? Quem vai achar as luvas de boxe dele?
Ele está cansado e precisa que você cuide dele. E você deve isso a ele! Eu sei.

Mas para encerrarmos essa guerra, quero lhe pedir que pare de enviar bilhetes eróticos ao meu marido. Isso me irrita. Não me irrita pelo conteúdo, mas porque eu amava você! Eu quis proteger você! Na noite em que eu e o seu marido ficamos conversando até quase o sol raiar, flertamos bastante, e eu disse a ele que você era muito especial, e que ele deveria cuidar de você. Eu o desejei, eu fiquei muito seduzida pelo olhar dele sobre mim, ele me queria, e não parecia estar preocupado com o fato de você estar dormindo no quarto, enquanto conversávamos e nos tocávamos na varanda. Talvez ele soubesse que você não acordaria facilmente, depois de ter passado o dia todo cuidando de quatro crianças.

Sabe que nesse dia eu não transei com o seu marido por sua causa? Por um tempo achei que tinha sido em respeito ao meu marido, mas não. O meu marido é forte. Ele é desejado por muitas mulheres e é livre para viver as relações que quiser. Além disso, seria uma troca justa, já que tínhamos nos deleitado eu, você e meu marido, sem a participação do seu, somente alguns dias antes. E também, meu marido sabe quanto o amo. Quanto eu o quero e admiro, e o meu sexo não seria uma agressão a ele. Mas você é frágil e dependente. E a falta de amor do seu marido por você é tão explícita que facilmente explica o fato de ele se sentir deslumbrado diante de qualquer paixão. Eu senti ódio dele por estar fazendo aquilo com você. E não tive coragem de fazer o que o meu corpo pedia. Mesmo que depois mal tenha conseguido dormir com a dor do desejo reprimido.

Mas na noite seguinte nos encontramos, eu, você e seu marido. Era explícito o desejo de todos e que estávamos livres para enfim viver aquele momento. E eu poderia explodir de prazer. Mas no fim tive que fingir um orgasmo – eu, que não fingia um orgasmo há anos! – enquanto você me tocava e me mantinha longe do seu homem. Não que eu não tivesse prazer com o seu toque, eu teria! Ainda hoje a estimo – com muita mágoa, é claro, mas ainda quero o seu bem...– enquanto pelo seu marido não sinto nada. Mas fiquei tão triste em vê-la me privando de viver aquilo. Logo você que tinha chorado nos braços do meu marido, bem diante dos meus olhos, depois que ele a fez gozar. E eu fiquei distante, observando. Nem toquei em você. Permiti que você vivesse aquele momento que era só de vocês, sem qualquer interferência minha. Permiti que você fosse feliz! Logo você, que na noite anterior eu tinha defendido de sofrer uma agressão, mais uma agressão, mesmo que dessa vez não fosse física, ao não aceitar deitar com o seu marido na sua ausência. Agora, com o seu consentimento, falso consentimento, eu estava ali, diante daquele corpo de homem que eu desejara tanto e que você, ardilosamente, me fez crer que eu poderia ter.

Nessa noite eu senti raiva de você. Num momento em que você foi ver as crianças para garantir que todos dormiam o sono dos justos, enquanto nós queimávamos em pecado, eu cochichei no ouvido dele: “Você vai me visitar um dia em casa, só você, já que sua mulher tem ciúmes de mim e não me deixa tê-lo!”. Mas depois não tive coragem de levar a proposta a cabo. Principalmente sabendo que ele estava apaixonado por mim. Eu também estava. Mas nunca o procurei. Pois olhando pra tudo a distância eu entendia que você estava sofrendo com aquela paixão que ele sentia. Como sempre algo mais interessante que você o puxava para longe de casa. Bruto homem que não a via, tão linda e feminina e servil...

Então eu achei por bem me afastar de você e do seu marido. Para poupá-la. E agora sinto muita raiva quando você envia bilhetes eróticos para o meu marido. Convites ao sexo. Mesmo não estando mais comigo, ele sempre me visita. Age como um cliente comum quando chega na casa, penso que as outras mulheres nem sequer desconfiam de quem se trata, de qual seja a nossa relação. Ele me mostra os seus bilhetes e zomba da sua solidão e eu me compadeço de você, mesmo sentindo raiva por você não me considerar, por você me desprezar ao ponto de tentar seduzir o meu homem para me agredir. Quando eu sempre defendi você!

Por favor, pare!

Quanto à sua resposta à minha carta que, como eu disse, era direcionada ao seu marido, me fez entender porque as mulheres não gostam de mim. Eu já sabia o motivo pelo qual os homens, mesmo me querendo, nunca me amaram. O meu sexo, o meu corpo e a minha voz são libertários e explicitam a opressão a que eles submetem suas mulheres. Faz com que lembrem que somos livres, tão livres quanto eles, e que se não exercemos a nossa liberdade é por medo de sermos queimadas na fogueira e não porque gostamos de nos submeter a eles...  O meu sexo sempre defendeu as mulheres, inclusive as mulheres que estavam sendo traídas pelos seus maridos na minha cama. Quando saí de casa e me mudei para o prostíbulo os homens passaram a me amar, pois o título oficial de puta me diferenciava das outras, e não mais os agredia. Mas as mulheres continuaram me odiando. E só pude entender isso agora, diante da sua resposta à minha carta, que não era, como lhe disse no começo dessa missiva, direcionada a você, mas somente a ele, mesmo que eu tenha me dirigido a vocês dois. Você me disse que eu estava tendo uma atitude típica feminina, histérica e mimada, ao apontar o machismo do seu companheiro. Eu sempre defendi as mulheres, e sempre fui tão ingênua que nunca me dei conta de que elas já sabiam de tudo, e que não precisavam que ninguém ficasse tentando revelar o que elas tinham tido tanto trabalho em esconder, delas mesmas.

Desejo a sua felicidade e a sua paz,

Espero que esse seja o fim das batalhas,

Com afeto e cuidado,

M.