Querida,
Vovô não morreu. Foi morar em Tocaia Grande.
Cansado do mundo politicamente correto, sem graça, sem humor mesmo, do Brasil aspirante a ares de Ôropa, muito sisudo e pouco sério, tirou a roupa de carne e mandou queimar, depois foi de alma nua para a Baixa dos Sapos, dormir entre as putas.
Ele é o artista do arruado. O intelectual do lugarejo. O homem mais letrado da pequena cidade.
Durante o dia monta o cavalete debaixo do toldo de palha que à noite serve de pouso aos tropeiros e pinta seus quadros repletos de bailarinas nuas e trapezistas nas mais esdrúxulas posições.
Apresenta ao populacho as imagens do mundo que só conhecem de ouvir falar, da boca das raparigas da estranja.
Já não pinta veleiros em meio a tempestades, pois chegou, enfim, o tempo da calmaria. Agora somente portos silenciosos e noturnos habitam suas telas. O coração está parado, pairando sobre o rio das Cobras, aquecido, em paz.
No mundo tudo estava pronto. Em Tocaia Grande tudo está por fazer.
Construiu uma casa de barro e palha e decorou as paredes com cacos de azulejos que seu Fadu lhe trouxe das viagens pra Ilhéus e Itabuna. A casa e os quadros são a única obra de arte que os olhos dessa gente conheceram.
Ele é o artista do povo. De manhã, com as tralhas de pintor, passa pelo barracão de armazenagem do cacau seco e toma um café preto e um trago de cachaça com os homens do Coronel Robustiano de Araújo.
Já no descampado recebe o almoço das mãos servis de uma puta e se ela não estiver cansada demais, da noite de se dar, se deita com ele pra fazer a sesta e uma pequena sacanagem. Antes de voltar às tintas toma uns goles da cachaça enquanto veste o trapo de calça jeans - um short surrado só para preservar as partes pudorentas.
À tarde já não é hora de trabalho. Depois de um banho no Bidê das Damas, adequada piscina natural usada pelas meninas para se lavarem e às roupas, continua a beber e jogar conversa fora com os tropeiros que vão chegando para o pouso. Alguns já conhecem sua fama de homem das letras, e lhes levam cartas para ler e responder. Cansado da mesmice das histórias pobres dos pobres diabos que ali passavam, logo começou a inventar os conteúdos das sujas missivas que lhe eram confiadas e caprichar no floreio das respostas, apenas "um pouco" diferentes do que era ditado pelo autor. E assim sua fama correu terra, e tinha gente que vinha de longe para ter uma carta decifrada e respondida pelo artista de Tocaia Grande.
No cair da noite, antes de juntar os cacarecos e se recolher para o merecido descanso ou, se estivesse por lá Pedro Cigano, para vestir trajes adequados para o rala-coxas da madrugada, vai ao Cacete Armado de seu Fadu e com umas valiosas moedas que ninguém sabe de onde surgem compra leite pros filhos das quengas. Distribui o raro alimento naquele sítio tão desolado e é recebido em festa pela meninada que se empanturra e se diverte com a prenda do vovô das tintas.
Em dias de preguiça, quando não monta a tenda de pintura no descampado, a criançada adentra sua escultura de cacos coloridos e passa o dia pintando e bordando, literalmente. Ele fica deitado à rede, lendo Hemingway, e vez ou outra levanta os olhos para fazer o balanço do estrago. Tem vezes que pega a bainha do facão para assustar os mais desordeiros e os que batem nos menores, e se dão mole levam logo um estalo na bunda, porque ele não tem dó.
Aos domingos é o mais animado conviva do almoço do negro Castor Abduim. E vez por mês, ou a cada dois ou três, substitui a carne de sol, produzida pelos próprios moradores de Tocaia Grande, por uma Paella, iguaria incompreensível aos sentidos daquele povo acostumado a jabá, rapadura, farinha e cachaça, mas que causa grande reboliço e euforia. Ninguém sabe nem quer saber de onde surgem os camarões, mariscos, polvos e lulas que recheiam o prato. Nesse domingo misterioso também tem vinho, mas a garrafa acaba cheia, pois todos dão preferência à boa e velha cana.
Na hora do sono, demora a pregar os olhos se tiver que ficar sozinho na própria cama, e vai arrastando a insônia até quase o dia raiar, quando as moças dispensam clientes, deitam todas juntas para o cochilo matinal, e o recebem em seu leito coletivo com um carinho de mãe. Ele dorme aninhado entre os corpos libertinos que exalam o cheiro do sexo e se sente livre, amparado, afagado, sente-se parte do mundo. As putas são Marinas, Ivones, Irenes, Irmas, Miriam, Fernandas, Luísas, Julianas, Laras e Pietras; suas mulheres reinventadas e, enfim, resignadas, que o recebem e o aceitam.
Quando, muito raro, sente uma dor no peito, apesar da falta de carne e do coração ausente a pairar sobre o rio das Cobras, e as lágrimas enchem os olhos que em geral só trazem riso e sarcasmo, se desfaz em sonho e mergulha no xibiu de uma quenga que se deleita toda a noite com sonhos eróticos nunca imaginados. Dorme em seu útero uma noite de morte para nascer novamente, esvaziado de dor e repleto de paz.
Quando você sentir a falta dele, querida, não diga, triste, como ontem, "Eu nunca mais vou ver o vovô" - que, diga-se de passagem, você nunca viu - pois você pode ir visitá-lo quando quiser em Tocaia Grande. Pode passar toda a tarde a pintar e bordar com os filhos das raparigas do lugarejo, se rindo sem tempo a perder.
Você vai ver, os dias com o vovô são impagáveis e inesquecíveis!