quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Nelson Rodrigue Z











Mon Chéri,

Vou direto ao assunto, pois vc bem sabe que tenho esse defeito, já anunciado por outro, antes de vc, de não ter mistério algum. Ao contrário dele, que me dispensou usando essa desculpa - e se falo que foi uma desculpa não é por falta de modéstia, mas pelo fato de que depois de me dar o fora ele resolveu dar o cú - vc, que apesar de toda a doçura é muito macho, sempre valorizou essa minha característica de sair por aí desvelando tudo. Portanto, vou mesmo ser direta!

Eu poderia dizer que sou muito jovem e que ainda não me vejo entregue aos afazeres domésticos e aos cuidados com os filhos. E que não é possível conciliar um relacionamento sério com o meu desejo pulsante de conhecer o mundo e de me tornar uma grande empreendedora e ser uma cantora de sucesso. Sei que vc ri disso e acha que é um desejo adolescente e absurdo, mas concluí, depois de terminar o livro da Bel Pesce, que eu e vc pertencemos mesmo a gerações diferentes...

Apesar de ser verdade que a sua forma de pensar é careta e preconceituosa e, portanto, não é positiva para mim, não é por isso que venho, por meio deste, encerrar, oficialmente, nossa relação.

O motivo é mais simples, mas nem por isso menos constrangedor! A questão é que o seu pau é pequeno e eu não posso mais tolerar isso depois que você se apaixonou por mim.

Como vc sabe, apesar da boca suja, que vc tanto critica, e das "más companhias", que vc abomina, não tenho conhecimento de variados modelos do órgão sexual masculino e, portanto, nunca havia percebido esse seu "defeito". Até sabia que era pequeno, por conhecimento teórico, mas reproduzia o que pensavam minhas amigas mais experientes: não importa o tamanho da ferramenta, tem que saber usar!

Porém, recentemente, percebi que pensamentos como este revelam, na verdade, uma aversão ao sexo, infelizmente comum para muitas mulheres, e que são expressos com bom humor e aparente desenvoltura para esconder o horror que elas sentem: acham que tudo têm que ser limpinho e cheiroso, rápido e indolor! Quer dizer, não gostam realmente do sexo, como ele é!

O sexo, para a mulher - e para as fêmeas de tantas outras espécies - é, NATURALMENTE, uma agressão: a seleção natural determina que só os machos fortes reproduzam, e para provar que merecem perpetuar sua genética precisam submeter a fêmea!

Talvez por isso o prazer não esteja dissociado da dor. Daí a importância do pau grande, entende?

O problema é que hoje, com essa onda politicamente correta, que inclui o feminismo e, no caso do sexo, se soma há anos de repressão sexual, essa coisa óbvia soa imoral. Afinal, que mulher que se preze vai assumir que gosta de "apanhar"? 

Mesmo que a  ideia já tenha sido disseminada por todas as instâncias da socieade, em clichês como a mais famosa frase de Nelson Rodrigues ou o funk do tapinha não dói, ninguém assume que a coisa é séria, e vão ficando todas frígidas, com nojo de sexo, sem tesão...

Por isso preferem um pau bem pequenininho, algo irrisório, que passe rápido e as livre deste momento penoso que é trepar.

Esses pensamentos já estavam se formando na minha cabeça quando eu vi no twitter a divulgação de uma pesquisa que comprova cientificamente a preferência das mulheres pelos canalhas. Fui buscar no Google e descobri que existem diversos estudos sobre o assunto e, então, tive um insight!

A canalhisse é um substituto cultural dos recursos naturais usados pelos machos, desde os primórdios, para machucar e dominar! Claro que usar o recurso mais natural de todos continua sendo o método mais eficiente para domar a presa, mas na ausência do pau grande a canalhisse é análoga na função!

Sendo assim, mon amour, eu só pude amar vc enquanto vc não me amava e me fazia sofrer! Deixar de ser um canalha foi o maior mal que vc fez para a nossa relação, já que você é desprovido do recurso natural análogo!

Agora vou encerrar este e-mail, ainda que você mereça toda a atenção do mundo. Tenho que estudar pra prova de algoritmos e linguagens de programação II, além de ter que finalizar aquele trabalho para o Lab de circuitos elétricos.
 
Ah, ontem comecei a aula de canto! Foi maravilhoso, obrigada por insistir!

Bjk e teté já!

Suz.
 
PS - Vc foi ver a palestra sobre o amor na Casa do Saber?
PS 2 - Decidi aceitar a bolsa para o ano que vem... fiz mal?
 




Querida Suzana,

Quando eu tinha 09 anos as minhas atitudes indesejáveis eram justificadas por eu ser apenas uma criança. Aos 15, eu era um adolescente rebelde. Aos 28, um jovem imaturo. Agora, aos 43, já não há esperança para mim e sem a mesma condescendência de antes, ouço as entrelinhas nos olhares reprobatórios: "não passa de um hippie inconsequente!".

Enfim, não tenho mais motivação para ser um canalha, mas entendo a sua necessidade! Aos 19, tudo é hormônio e libido!

Seja feliz no Vale do Silício! E esqueça essa coisa psicológica rodrigueana, ela não será uma competência útil na visão dos recursos humanos, quando da seleção dos trainees!


Um grande beijo.

 

3 comentários:

  1. O texto é leve e divertido, gostei. Nem precisava da resposta do fulano de pau pequeno.
    E a tese da canalhice como substituto cultural é Bárbara.

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  2. Tati, se vc soubesse da importância dos seus comentários nesse blogue para a minha vida!!!!!!!!
    Obrigada!

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  3. Será que a Suzana foi ser feliz no Vale do Silício, ou depois da resposta do amante chorou 05 dias sem parar, ligou para o celular dele 30 vezes ao dia e implorou para que ele voltasse para ela, ainda que sem sucesso?

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