Descobri, através do último texto, que a mulher cuida do coletivo e o homem cuida de si próprio. A mulher cuida dela, do marido, dos filhos, da casa, dos doentes, dos feridos, da terra, da comida, da água, das moedas de troca e, assim, garante que o homem possa fazer coisas que tenham um reconhecimento individual passível de ser premiado com o valor que permite a sobrevivência da espécie - em tempos remotos: uma bela caça; na sociedade contemporânea: uma bela grana!
Em que momento esse reconhecimento individual passou a ser algo mais valoroso do que o cuidado com o grupo? Por que a mulher deixou de desejar exercer a função de grande administradora do coletivo para ocupar o lugar de indivíduo? Por que ser indivíduo tornou-se melhor que "ser" coletivo ou, mais que isso, que ser responsável pela manutenção e sobrevivência do coletivo? Por que a mulher passou a desprezar o reconhecimento social individual dos homens ligados a ela (marido, filhos, irmãos, pai) como uma prova inequívoca do seu sucesso e, consequentemente, passou a buscar, ela mesma esse reconhecimento para si?
E mais: quando isso aconteceu, quando se deu essa supervalorização do indivíduo em detrimento do coletivo, como se a massa (e aí já temos um termo pejorativo) fosse apenas os degraus da escada para o indivíduo brilhante subir ao seu posto mais alto de ser iluminado e especial, passível do reconhecimento e admiração de todos, quando isso aconteceu, todas as esferas da sociedade foram invadidas por indivíduos famintos de terem seus nomes impressos em alguma calçada da fama. E iniciou-se a falência da própria sociedade, a falência do coletivo através da invasão dos indivíduos em todos os setores da sociedade: querendo se destacar por seus méritos como médicos em vez de cuidar dos doentes e feridos, visando ser importantes pedagogos em vez de garantirem a educação de seus pupilos, buscando o reconhecimento global como grandes chefes de Estado em vez de se submeterem à árdua e generosa tarefa de representar os interesses de um país inteiro.
O feminino tem que tomar conta de tudo de novo, mandar o masculino de volta para a única esfera onde ele pode ser pleno: a esfera do trabalho (da remuneração, do reconhecimento social individual). O feminino tem que arrancar das mãos individualistas do masculino todas as coisas que se tornaram trabalho e que não são: a medicina, a pedagogia, o direito, a política.
(versão menos feminista e por isso mais feminina do parágrafo anterior, mas que não foi escolhida como a oficial porque certamente encontraria menos aceitação entre as mulheres, ainda que talvez seja mais bem recebida pelos homens: O feminino tem que se submeter, novamente, a sua função de administrador da esfera doméstica e permitir que o masculino retorne à única esfera onde ele pode ser pleno: a esfera do trabalho (da remuneração, do reconhecimento social individual). Para o bem coletivo e a conservação da sociedade, o feminino tem que acolher novamente em sua esfera doméstica todas as coisas que, equivocadamente foram transferidas para a esfera do trabalho mas a ela não pertencem: o cuidado com os doentes e os feridos, a educação das crianças e a resolução de conflitos sociais ou representação do interesse público.)
O feminino também tem que tirar da esfera do trabalho a arte e a religião, mas sem tirar delas o masculino. Pois o simbólico é o lugar da coexistência dos dois princípios. Através das metafóras artísticas e religiosas é que os princípios masculino e feminino se compreendem essencialmente e homens e mulheres podem continuar existindo de maneira plena e em conexão profunda com os princípios que melhor lhes couberem, garantindo a perpetuação da espécie através da única coisa que a perpetua de fato: a manutenção das dualidades!
E para ilustrar, uma anedota de que gosto muito:
Dizem que o Presidente Obama e sua esposa Michelle Obama, estavam jantando em um fino restaurante quando o dono do estabelecimento veio cumprimentá-los e se dirigiu a ela com uma intimidade inusitada. O presidente, surpreso, perguntou, quando o homem se retirou, se ela o conhecia. Michelle respondeu que tinham sido namorados na juventude. Obama gracejou:
- Então, se você tivesse se casado com ele, você seria dona desse restaurante!
Ao que ela rebateu:
- Não, se tivéssemos nos casado, ele seria presidente dos Estados Unidos!
E fechamos com dois comentários provacativos:
1 - Sendo ou não presidente dos Estados Unidos, ele seria sempre o mesmo Barack Obama; já ela, só é Michelle Obama se esposa DAQUELE presidente. Acho que a metáfora é clara, mas eu não resisto: quem se perpetua como indivíduo, é o homem, a mulher, por mais fundamental que seja para a perpetuação do indivíduo, se "transmuta" de acordo com as necessidades de cada coletivo em que se insere.
2 - A anedota não é de fato ideal para ilustrar esse texto, pois na lógica aqui defendida o dono do restaurante devia ser mais famoso que o presidente, por ser um homem de negócios, e somente nos negócios (e nas guerras) os indivíduos podem se destacar, nunca como um representante do povo, deste são os feitos que devem ficar para história e não o nome!
... E somente indivíduos profundamente conectados com o princípio feminino são capazes de abrir mão do seu nome pelo bem coletivo, sejam indivíduos homens ou mulheres!
Esse seu blog me dá um trabalho! Gosto disso, porque ele me incomoda e me faz pensar. Muitas vezes ele também me irrita, e isso é ótimo, pois é mais um desdobramento do fato de ele me incomodar e me fazer pensar. Vou escrever livremente e com alguma inconsequência sobre as coisas que me ocorreram.
ResponderExcluir1. O que mais me incomoda, eu acho (além dessa defesa apaixonada da servidão voluntária), é essa idéia de fazer reflexões sobre a sociedade e os indivíduos sob o recorte do gênero. Tire a questão do gênero do seu texto e não vai fazer a menor diferença para expressar as idéias que você quer expressar a respeito do quanto a sociedade se tornou individualista e sobre o quanto abriu mão do cuidado, da preocupação com o outro e do coletivo.
2. Pessoalmente, olho com desconfiança para reflexões catastróficas sobre o contemporâneo. Penso que vivemos, em verdade, um paradoxo nessas questões (como já afirmou um filósofo, ainda que eu não esteja muito certa de qual foi e em que obra. Ops...). Ao mesmo tempo que há um incremento ferrado de individualismos, há milhares de idealistas que defendem o coletivo, que fazem a crítica ao individualismo. Esse paradoxo está em todas as áreas: destruímos estupidamente o planeta e nunca houve tantos defensores do meio ambiente; comemos feito loucos, estamos obesos, e nunca houve tanta defesa da vida saudável; fumamos feito lunáticos e nunca houve tanta exposição dos males do tabaco; e por aí vai.
3. Bom, mas seu foco de reflexão é sobre o gênero, certo? Uma coisa que me incomoda nessa reflexão (e nem me refiro a este texto, mas a outros textos que já escreveu aqui) é essa idéia de que a mulher é destinada à servir enquanto o homem é destinado ao individualismo, ao espaço público e sei lá o quê... (me desculpe, mas estou pressionada pelo tempo, meu bebê acordou e já está reclamando no berço). Uma observação rápida sobre isso: tenho visto tantas e tantas mulheres capaz de servir e se dedicar por completo aos seus filhos sem que sejam capaz de fazer o mesmo por outra pessoa qualquer. Eu mesma sou uma pessoa dessa. E, francamente, não compreendo porque a capacidade de se dedicar a um filho faz dá mulher um ser que deve se dedicar a servir ao homem. (ok, você dirá que hoje desvalorizamos a servidão, etc...). Por outro lado, tenho visto muitos homens capazes de se dedicar e servir a suas esposas como não vejo nenhuma mulher fazer. Enfim, preciso ir agora, atender ao meu filho (servi-lo), mas continuemos sempre refletindo, isso é muito bom.
Escrevi tão livre e inconsequentemente que até erro de português passou.
ResponderExcluirp.s.: Já publicaram span como comentário em seu blog? Se nunca aconteceu, já considerou tirar essas letrinhas chatas que temos que copiarpara provar que não somos uma máquina toda vez que comentamos algo?
adoooro!
ResponderExcluirtambém com pouco tempo (e ainda princípio de enxaqueca, e pietra pedindo atenção).
duas coisas:
1 - se tirar o gênero é a mesma coisa, mas aí não se coloca uma possível causa! pra mim a causa do individualismo é a masculinização!
2 - não falo que mulheres são destinadas a servir! e sim que o princípio feminino se identifica com a submissão, com o servir ao outro (e não necessariamente ao homem), com o cuidado com o coletivo... isso não significa que uma mulher, individualmente, não possa ser totalmente voltada para si e um homem totalmente altruísta! sempre faço questão de reforçar que falo em "princípio" e não em gênero! o gênero é uma coisa social que, no contemporâneo está se desligando do sexo biológico e até da opção sexual! não é o máximo!!!? faz tempo que estou tentando escrever um texto sobre essa questão de agora: não apenas o sexo biológico não é determinante da opção sexual, como não é determinante nem do próprio sexo biológico (mudança de sexo) e muito menos do gênero (travestis ou cross dressers - é assim que escreve?)...
poderia colocar uma terceira questão, mas essa mais complexa, sobre esse lance da demonização do contemporâneo! eu amo o contemporâneo, não acho que temos que voltar no tempo, de jeito nenhum! acho que temos é que cuidar do nosso tempo, andando pra frente e mantendo princípios éticos (que não são príncípios morais)... aliás, acho meio óbvio que se estamos nos destruindo por um lado, por outro surjam defensores ferozes do que está send destruído! muito mais louco do que isso, são aqueles que afirmam que as ações tidas como destrutivas não o são de fato, como os caras que ultimamente já ganharam até a grande mídia, que afirmam que não tem nada de errado com o planeta!
chega! a pietra quer ver desenho!