Nós humanos, temos mesmo um cabresto social.
Já escolados no curso da história, continuamos presos ao
nosso tempo, fiéis às caretices que na próxima década serão facilmente aceitas
pelo senso comum. Podemos provocar o estouro da boiada, a qualquer momento, mas
não o fazemos. Aguardamos, mansinhos, a abertura da porteira invisível que nos
permitirá passar para onde antes não podíamos nem sonhar em pisar.
Olhamos para o passado que a televisão nos mostra, zombeteiros
ou chocados, com coisas que um dia foram consideradas normais: mulheres
vestidas com maiôs gigantes que mais pareciam armaduras de verão; a música de
Chiquinha Gonzaga, considerada uma afronta à moral e aos bons costumes; homens
que matavam suas esposas por adultério e eram apoiados pela lei. E sem nos darmos
conta da anedota que protagonizamos, voltamos para o presente e iniciamos o nosso
blábláblá moralista. Ficamos indignados com as microroupas, cada vez menores,
usadas pelas garotas de todo o Brasil (na praia até pode, mas dentro de uma
faculdade, que absurdo!!). Não gostamos de funk e de toda a cultura da
periferia, que vai tomando conta do país; e à revelia dos que se indignam porque
o Brasil continua ganhando fama, mundo afora, com o mercado do sexo e afins,
exportamos em enxurradas os corpos turbinados que se chacoalham, frenéticos, na
batida do pancadão. Nos apaixonamos como verdadeiras julietas e exigimos
fidelidade, pois poligamia (ou poliamor) é mesmo coisa de vagabunda! Mas o
desejo pulsa e vivemos casamentos muito mais duradouros do que felizes, ou “pulamos
a cerca” às escondidas, mantendo o véu hipócrita e civilizante das aparências.
E que vaca a famosa que traiu. Que canalha o ator que apareceu beijando outra.
Que afronta a novela que coloca um médico rico e bem intencionado
profissionalmente, que ama a família, mas trai a esposa. O adúltero não pode
ser humano, deve estar pintado com as cores do demônio.
A mesma novela instiga a polêmica: enfim teremos o primeiro
beijo global-gay? Não nos damos conta do patético! Casais formados por pessoas
do mesmo sexo pululam nas ruas das cidades de todo o Brasil. Na falta de
pessoas públicas que assumam sua orientação sexual, anônimos assumidos tornam-se
celebridades do entretenimento à política, para representarem a massa GLBTS que
se agiganta. Enfim, uma Daniela Mercury se enche de esperar que se faça o
acordo tácito que torne legítimo o seu amor por outra mulher, e divulga para o
mundo o seu casamento homossexual. Começam a pipocar jornalista, jogador de
futebol, jogadora de vôlei, pouco a pouco se libertando da clandestinidade.
Será que já pode? Abriu a porteira? Ficamos ansiosos diante da telinha,
esperando que a novela nos dê a resposta oficial.
E quando se torna normal ser gay, perde a graça especular
quem é e quem não é. Então vamos logo exercitar nossa nobre missão de freio
social em outra freguesia. As boas do momento são as putas! Não as de bordel ou
as da Augusta, porque essas estão obedientes em seus lugares. Falamos de garotas de programa universitárias,
de família, que se vendem através de belos sites na internet, que escrevem
blogues ou até livros sobre sua profissão. Elas têm clientes cultos que
procuram no sexo o mesmo requinte que buscam nos vinhos, e que podem sair com
uma puta da mesma forma que o fariam com uma garota qualquer, ou ainda
contratar serviços sexuais como quem vai à pedicure. Essas infames é que
precisam ser cerceadas, para que não embacem os limites entre o certo e o
errado.
Por causa delas, daqui a pouco, nossas filhas vão estar
vendendo seus corpos. Imagine! Meninas de família, estudadas, vão escolher
seguir esse caminho, e o que faremos? E depois, as semi-famosas que vira e mexe
são acusadas pela mídia, de serem prostitutas de luxo, vão começar a assumir: eu sou mesmo. E de repente a irmã da mocinha da novela vai ser estudante
universitária e prostituta assumida, e vai ter amigos, frequentar lugares
comuns, e até vai ter um namorado.
E então? Vai ser normal ser puta?!!!!!
O que seria da humanidade se assumíssemos publicamente que o
desejo reprimido que está em mim está em todos?
Seríamos livres!!! Que horror! Não teríamos mais que esperar
a porteira abrir pra caminhar em bando. Poderíamos circular livremente, de
acordo com os nossos desejos, as nossas necessidades mais íntimas. Em harmonia com
a nossa essência.
E o que seria de mim? Tendo que escolher sozinha que caminho
seguir. Sem uma tendência social. Sem as regras de uma época que me abriga e me
tolhe, felizmente!
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