segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Casa Vazia


Percorrendo os cômodos vazios da casa ela confere se nada ficou para trás, enquanto as paredes nuas da cozinha fria ecoam as mastigadas da filha que, sentada no ladrilho, come bocados de pizza da noite anterior. A última em que estiveram juntos naquele lugar: pessoas e coisas.

Os carregadores montam um lego no caminhão da mudança, tentando encaixar os vasos de plantas. A mulher tomou o lugar do marido na supervisão do serviço, pois ele já partira, rumo à rodoviária, de modo a tomar o ônibus das 13h30 e chegar ao litoral a tempo de receber o caminhão e descarregar os pertences do casal e da filha na nova morada.

O vaso grande ficou de fora, com uma muda das Lágrimas de Cristo. Ficarão para os próximos ocupantes. Que eles gostem de plantas! É o que lhe resta desejar...

Ela se despede dos homens, deixando-lhes o cheque pré-datado, ainda sem fundos, e o veículo segue o seu caminho, levando a vida no seu baú de 6 metros, empanturrado de histórias encaixotadas.

Mulher e filha, com bagagem para uma semana de estada na casa da vovó, seguem para o interior de São Paulo. Caminhada até a estação de metrô, duas linhas, terminal rodoviário, ônibus para o interior. Está vazio. Que bom, pois a menina, no auge dos seus quatro anos, não se aquieta em seu lugar. Repreendida pela mãe, por ficar “zanzando” no corredor, retruca, debate, desobedece.

- Chega! Se o ônibus brecar, você vai cair! Senta aqui e fica quieta.

Impedida de se mover, presa ao banco pelo cinto de segurança, a garota se debate, chora, berra, inconformada. A mãe tenta conversar, já desesperada com o bem estar dos demais ocupantes do ônibus, cuja indiferença é tanta que explicita o incômodo. A menina não arreda o pé. O escândalo se intensifica. A mulher silencia e ignora. Consegue abstrair o choro. Quase esquece. Até que, lá na frente do ônibus, uma senhora negra se levanta, e olha para trás com expressão de impaciência. A mãe a encara, orgulhosa, não se intimida. A mulher faz um gesto de questionamento com a cabeça.

Você não vai jogar a sua filha pela janela? – Talvez ela queira dizer.

Como a senhora não desiste, mas permanece calada em sua irritação questionadora, a mãe reage:

- O que foi? Criança chora, minha senhora!

A velha se senta, mas não sem antes soltar um leve grunhido de insatisfação. A mãe não perdoa:

- Eu sou uma cidadã, minha senhora, tenho o direito de viajar com a minha filha em um transporte público, se a senhora está incomodada, compre um carro!

Silêncio. A jovem mãe está só. No seu pensamento não pode acreditar que uma mulher, velha e negra, alguém triplamente vitimizada pela falta de justiça social, de cooperativismo, de coletividade, possa ser tão terrivelmente individualista e cruel. A indiferença dos demais passageiros lhe causa um nó na garganta. Não devia! Com a nova moda, eles poderiam ter resolvido linchá-la por não ser capaz de manter a filha calada... ficaram mudos, estrategicamente absortos em seus livros e smartfones. Antes assim... não é?

A viagem já vai pela metade quando a menina, que agora estava mergulhada em brincadeiras silenciosas – com a graça de deus!, vira-se para a mãe com as bochechas infladas e a boca travada. A mulher se desespera em busca do sempre presente saquinho plástico, mas não há tempo, a garotinha lava o chão e alguns bancos do veículo com um terrivelmente fedorento vômito!

O ônibus estava vazio, e ninguém foi atingido pelo asqueroso jorro infantil! E como elas estavam sentadas próximas ao banheiro, a mãe pode limpar tudo com apenas 34 pedaços de papel toalha e 23 viagens entre poltronas e sanitário... tranquilo!

Enfim, chegaram! Enfim, estavam acolhidas, na casa da vovó!

Deitada na cama de solteiro, do quarto de hóspedes, na casa da mãe, ela sente um estranho sentimento de abandono. A filha dorme quieta, num colchão ao lado da cama. Sentindo-se só e angustiada, ela liga para o marido em busca de cumplicidade. Ele está ocupado. Sozinho na casa vazia, ele tapa os buracos da parede com massa corrida. Buracos dos quadros, espelhos, porta retratos, prateleiras, estantes. Buracos de prego pra amarrar barbante de bexiga, buraco de gancho de rede pros amigos bêbados se jogarem na madrugada, buraco dos cartazes e gráficos para a reunião sobre a circulação de um espetáculo teatral pela Região Norte do Brasil, buraco de cenário e luz fixados pelos cômodos para a apresentação de um experimento cênico, buraco do cabideiro oferecido ao morador temporário. Buracos infinitos a serem tapados. Lixa as paredes recortadas das mais diversas cores para poder cobri-las de um cordato e inofensivo branco. Esticado sobre o último degrau da escada de madeira, ele equilibra tábuas de 4,5 metros de comprimento e as prende ao forro do quarto grande, sozinho. E depois do longo dia de trabalho, não será possível tomar banho antes de se jogar no velho colchão de solteiro, torto de tantos diferentes hóspedes que já acolheu. Não pode ligar o chuveiro, pois descobrira uma infiltração no cano do ralo do box, e precisou quebrar tudo para arrumar... Ele até tentou procurar um hotel, lá por perto, já que não tem carro, mas o máximo que encontrou foi um motelzinho fuleiro, que não tinha vaga...  talvez tome um banho frio na pia, se resistir ao frio da noite paulistana.

Ela desliga o telefone e está pior. Resolve fumar um cigarro antes de dormir. Vai até a garagem e recosta-se no portão para observar a rua. São pouco mais de 23h e durante todo o tempo que ela permanece lá, nenhum passante. Nem a pé, nem de carro. Sente uma nostalgia adiantada de ser paulistana. Pensa nas ruas do (já não seu) bairro, sempre movimentadas: os que vão e vem do trabalho, os que chegam e partem da academia, os que caminham até a padaria, os que correm ao supermercado antes que feche e os muitos que passeiam, despreocupados, com seus cães. Assim é um típico bairro paulistano por volta das 23h. Foi-se o tempo que, nas cidades do interior, as pessoas sentavam em cadeiras na calçada para papear e ver o movimento. Estão todos fechados atrás de grades e muros altos, protegidos por cercas elétricas. Em São Paulo, paradoxalmente, é mais possível cruzar com o vizinho e falar sobre o tempo seco e a terrível tragédia que matou o presidenciável.  Mesmo que não se possa pedir um chuveiro emprestado...

Volta para a cama e lá permanece, acordada, por longas horas. Imaginando o desconforto do marido. Sentindo-se um pouco sem sentido por estar tão longe. Quase não entende os porquês desse momento estranho. Ele lá, sozinho, reformando a casa toda, sem ter um pouso confortável ou um chuveiro quente. Ela tendo que partir com a filha, para quase 300 km de distância, pois já não há lar em São Paulo...

Aquela casa, agora vazia, foi o sonho utópico de um lar estendido. Foi um investimento de fé em uma sociedade comunitária, em que a preocupação com o outro não se manifesta através dos textos postados nas redes sociais, mas no cotidiano carnal. Na vida de todo dia. Na porta sempre aberta, na comida feita com as mãos e oferecida ao irmão, na hospedagem do amigo sem pouso, no encontro para fazer pão, para fazer telhado, para fazer peça de teatro.

Pensando nisso, ela sonhou acordada. Sonhou que estava em uma grande cozinha, cercada de enormes panelas e, em parceria com outras mulheres, preparava uma refeição coletiva, enquanto as crianças brincavam juntas no gramado, as mais velhas cuidando das mais jovens, e os homens, em mutirão, reformavam uma casa colorida.



PS - esse post devia vir acompanhado de fotos dos inúmeros encontros que aconteceram na Rua Assungui, 150, nos últimos 5 anos, mas descobri, vasculhando infinitos álbuns digitais, que momentos felizes não são fotografados... 



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

E então, vai ser normal ser puta?

Nós humanos, temos mesmo um cabresto social.

Já escolados no curso da história, continuamos presos ao nosso tempo, fiéis às caretices que na próxima década serão facilmente aceitas pelo senso comum. Podemos provocar o estouro da boiada, a qualquer momento, mas não o fazemos. Aguardamos, mansinhos, a abertura da porteira invisível que nos permitirá passar para onde antes não podíamos nem sonhar em pisar.

Olhamos para o passado que a televisão nos mostra, zombeteiros ou chocados, com coisas que um dia foram consideradas normais: mulheres vestidas com maiôs gigantes que mais pareciam armaduras de verão; a música de Chiquinha Gonzaga, considerada uma afronta à moral e aos bons costumes; homens que matavam suas esposas por adultério e eram apoiados pela lei. E sem nos darmos conta da anedota que protagonizamos, voltamos para o presente e iniciamos o nosso blábláblá moralista. Ficamos indignados com as microroupas, cada vez menores, usadas pelas garotas de todo o Brasil (na praia até pode, mas dentro de uma faculdade, que absurdo!!). Não gostamos de funk e de toda a cultura da periferia, que vai tomando conta do país; e à revelia dos que se indignam porque o Brasil continua ganhando fama, mundo afora, com o mercado do sexo e afins, exportamos em enxurradas os corpos turbinados que se chacoalham, frenéticos, na batida do pancadão. Nos apaixonamos como verdadeiras julietas e exigimos fidelidade, pois poligamia (ou poliamor) é mesmo coisa de vagabunda! Mas o desejo pulsa e vivemos casamentos muito mais duradouros do que felizes, ou “pulamos a cerca” às escondidas, mantendo o véu hipócrita e civilizante das aparências. E que vaca a famosa que traiu. Que canalha o ator que apareceu beijando outra. Que afronta a novela que coloca um médico rico e bem intencionado profissionalmente, que ama a família, mas trai a esposa. O adúltero não pode ser humano, deve estar pintado com as cores do demônio.

A mesma novela instiga a polêmica: enfim teremos o primeiro beijo global-gay? Não nos damos conta do patético! Casais formados por pessoas do mesmo sexo pululam nas ruas das cidades de todo o Brasil. Na falta de pessoas públicas que assumam sua orientação sexual, anônimos assumidos tornam-se celebridades do entretenimento à política, para representarem a massa GLBTS que se agiganta. Enfim, uma Daniela Mercury se enche de esperar que se faça o acordo tácito que torne legítimo o seu amor por outra mulher, e divulga para o mundo o seu casamento homossexual. Começam a pipocar jornalista, jogador de futebol, jogadora de vôlei, pouco a pouco se libertando da clandestinidade. Será que já pode? Abriu a porteira? Ficamos ansiosos diante da telinha, esperando que a novela nos dê a resposta oficial.

E quando se torna normal ser gay, perde a graça especular quem é e quem não é. Então vamos logo exercitar nossa nobre missão de freio social em outra freguesia. As boas do momento são as putas! Não as de bordel ou as da Augusta, porque essas estão obedientes em seus lugares.  Falamos de garotas de programa universitárias, de família, que se vendem através de belos sites na internet, que escrevem blogues ou até livros sobre sua profissão. Elas têm clientes cultos que procuram no sexo o mesmo requinte que buscam nos vinhos, e que podem sair com uma puta da mesma forma que o fariam com uma garota qualquer, ou ainda contratar serviços sexuais como quem vai à pedicure. Essas infames é que precisam ser cerceadas, para que não embacem os limites entre o certo e o errado.

Por causa delas, daqui a pouco, nossas filhas vão estar vendendo seus corpos. Imagine! Meninas de família, estudadas, vão escolher seguir esse caminho, e o que faremos? E depois, as semi-famosas que vira e mexe são acusadas pela mídia, de serem prostitutas de luxo, vão começar a assumir: eu sou mesmo. E de repente a irmã da mocinha da novela vai ser estudante universitária e prostituta assumida, e vai ter amigos, frequentar lugares comuns, e até vai ter um namorado.

E então? Vai ser normal ser puta?!!!!!

O que seria da humanidade se assumíssemos publicamente que o desejo reprimido que está em mim está em todos?
Seríamos livres!!! Que horror! Não teríamos mais que esperar a porteira abrir pra caminhar em bando. Poderíamos circular livremente, de acordo com os nossos desejos, as nossas necessidades mais íntimas. Em harmonia com a nossa essência.

E o que seria de mim? Tendo que escolher sozinha que caminho seguir. Sem uma tendência social. Sem as regras de uma época que me abriga e me tolhe, felizmente!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O OUTRO LADO DOS SEUS OLHOS VERDES


Através de você, o universo se refaz.

Vislumbro todas as possibilidades que a vida me dará.

Não há palavras.

Só é possível lágrimas.

Estou sem ar. Extasiada:

Todas as possibilidades da vida?!

A liberdade jamais pensada.

Um novo criar. Criar e com-partilhar.

 

O encontro com a arte que está em repouso no cerne do mundo.

 

Um novo amar.

O Amor.

 

(Ainda pretensão. Ainda dor por não poder expressar o que emerge).

 

Você estava a caminho,

Passou por mim

Me levou contigo.

Convicto, a seguir.

Duvidei tanto.

Duvidei sempre.

Você permaneceu ao meu lado.

Forçando o passo.

Eu sigo, entregue ao caminho que me propõe.

 

Um vendaval de dentro pra fora de mim

E a certeza de um mundo muito maior do que eu poderia conhecer

sem você.

 

Um encontro.

Paixão arrebatadora

Que se desdobra infinitamente.

 

Sou a Rainha, escolhida pelo Rei do Mundo.

Você é parte do todo que pulsa sem moral.

A própria natureza encarnada. A vida plena sem critérios. 

 

Sigo arrebatada das descobertas que me permito através de você.

A nova vida que se faz através dos seus olhos únicos.

A Arte.

O Amor.

A verdadeira liberdade.