terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Doroteia Gabriela

Há tempos não sonho com Doroteia, seus longos e lisos cabelos desgrenhados, multicores, a enroscarem-se nos meus brincos nas longas e árduas noites insones. Agora, é Gabriela quem visita minha cama, furtiva, enquanto, de olhos fechados, tento distrair-me de seus perfumes para dormir um pouco.

Sentir cheiro de cravo é fácil até na imaginação. É como pensar no suco do limão na língua e salivar. Sinto os aromas de Gabriela e fico desejando-a, toda, tanto, devorá-la e tornar-me eu mesma ela!

Sonho com este feminino mítico, pleno, inatingível. A mulher inocente de seus pecados. Que se deita com todos os homens por quem sente desejo. Desejo de cio. Não desejo de homem, que se serve das raparigas e tem o mais amplo reconhecimento social. É desejo de mulher-bicho, mulher-bruxa, que se sabe a escória da sociedade, sempre à margem de todas as instituições respeitáveis. E não se gaba. Não se orgulha. Não mostra vaidade subversiva, vanguardista. Apenas aceita, resignada, a sua condição de puta, de serva. Não pede nada. Prepara os mais deleitosos quitutes, arruma a casa, deixa a roupa engomada, pronta para vestir, e, como que por magia, mantém-se bela e fresca, sem um ruge, sequer, perfumada pela natureza. Caminha como a dançar e enfeitiça os homens, sem intenção. Não almeja casamento, nem tecidos finos, jóias ou passeios pela alta sociedade. Gosta de ficar em casa, com os pés descalços, vestido de chita velha, transparente de tão puída, a marcar os seios despreocupados... Também não se mete em assuntos difíceis, política, literatura, incapaz de aprender o gamão, "ou qualquer jogo que não o "jogo dos burros"", deliciosamente alienada do mundo dos homens. Mora no seu próprio planeta e faz visitas esporádicas e avassaladoras ao universo masculino.

Doroteia me olha de longe, triste, envelhecida. Um pouco decepcionada com o meu desejo ingênuo. Acha-me tola por fingir não saber que Doroteia já foi Gabriela. Ri-se por me ver disforme, furta-cor, furta-dor: ora esquálida e sem sangue nas veias, de boina e piteira, a declamar poesia modernista, louvando a sertaneja faceira, ora como uma amazona gorda, de tranças e chifres, devorando a moça  xucra de beleza natural.

Doroteia foi mãe. Toda a sua servidão se voltou, como que por instinto, para a sua cria. Doroteia lutou contra o seu impulso e não quis deixar morrer Gabriela, e cuidou tanto dela que se esqueceu do pobre anjinho, que se foi, só para maltratá-la. O menino-homem que morreu para obrigar Doroteia a apedrejar Gabriela com chagas boazinhas, que mordem vagarosamente, revelando o paradoxo sem solução que habita dentro de cada mulher.

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