Tenho o hábito de dizer que já não cultivo o desejo de ser um gênio. Isso porque o cultivei, por muito tempo, durante a minha adolescência, enquanto ainda havia tempo hábil para a minha pretensão se concretizar, mesmo que já não houvesse indícios para se crer em tal possibilidade.
Hoje os indícios continuam ausentes e agora também já passei da idade da manifestação dos dons divinos. Tornei-me, enfim, uma mortal!
Porém!, não posso deixar de reconhecer que essa resignação à normalidade é apenas uma forma de não me tornar patética aos olhos dos outros. Dentro de mim sufoco o desejo de ter reconhecido o meu talento inegável! Eu me acho mesmo o máximo e olho para a massa medíocre de cima da minha indefectível pretensão!! Aguardo, silenciosa e humilde, o dia em que a minha obra será reconhecida!
Tenho pensado que o meu desejo de me tornar "uma mulher" está diretamente ligado à minha necessidade de suportar o fracasso (entendido numa perspectiva masculina, ou seja, o não reconhecimento público pelas ações realizadas no âmbito sócio-político-cultural).
"Uma mulher" não tem ambições de reconhecimento fora do âmbito do seu próprio lar. Sua busca é ser admirada por seu marido e seus filhos e o sucesso deles é a única prova de que sua missão no mundo foi cumprida com êxito. E na perspectiva do princípio feminino não há um tom irônico nessa afirmação e não há qualquer frustração quando não se associa o sucesso do marido ao sucesso da esposa, pois tal associação é pleonástica: o sucesso do marido é o sucesso da esposa!
A mulher que busca o reconhecimento de outros além daqueles a quem deve servir iguala-se ao homem, rouba a sua função, e passa a competir com ele, tornando-se uma ameaça.
As estruturas sociais são organizadas de modo a funcionarem quando todas as funções são preenchidas e realizadas com afinco: se o fígado resolve ser coração, porque ser coração é mais importante do que ser fígado, o organismo morre!
A família é um organismo! Portanto todas as funções precisam ser exercidas para garantir a sua sobrevivência. Se essa afirmação soa careta no nosso mundo moderno, temos que nos tornar modernos de fato, e extinguir a família! Se não somos capazes, temos, então, que evoluir ao ponto de garantirmos a manutenção das funções para a sobrevivência do organismo, sem confinar nenhum indivíduo à função que lhe foi determinada por associação biológica ou social; antes, temos que permitir um acordo tácita e profundo, em que todos se revezem generosamente na realiazação das funções, sem nunca hierarquizá-las, usufruindo da dor e do prazer de cada uma delas.
Eu sou um fígado que deseja também ser coração e preciso morar num organismo em que o coração aceite, vez ou outra, descer para o estômago!
Acho um pouco assertiva demais a sua tese, no seguinte sentido: há espaço para mais meandros e circunstâncias nesse organismo, mais elementos. Contudo, eu fico muito satisfeito de serem ditas coisas sem a capa da hipocrisia, do politicamente correto e de uma suposta libertação da mulher (e do homem - no que toca a estrutura contemporânea familiar como você citou) no mundo de hoje.
ResponderExcluirDe novo, parabéns. O texto é muito coeso e cativante.
hahhahaa! sem dúvida, muito espaço para meandros e mais meandros, por isso mesmo usei a metáfora...
ResponderExcluiradorei tê-lo aqui, volte sempre!
saudades de ouvir vc, e até de tê-lo como interlocutor, mesmo que sempre fique com a sensação de que estou sendo julgada e condenada! hahhaha!
bjbjbjbj!