Percorrendo os cômodos vazios da
casa ela confere se nada ficou para trás, enquanto as paredes nuas da cozinha
fria ecoam as mastigadas da filha que, sentada no ladrilho, come bocados de
pizza da noite anterior. A última em que estiveram juntos naquele lugar:
pessoas e coisas.
Os carregadores montam um lego no
caminhão da mudança, tentando encaixar os vasos de plantas. A mulher tomou o
lugar do marido na supervisão do serviço, pois ele já partira, rumo à
rodoviária, de modo a tomar o ônibus das 13h30 e chegar ao litoral a tempo de
receber o caminhão e descarregar os pertences do casal e da filha na nova
morada.
O vaso grande ficou de fora, com
uma muda das Lágrimas de Cristo. Ficarão para os próximos ocupantes. Que eles
gostem de plantas! É o que lhe resta desejar...
Ela se despede dos homens,
deixando-lhes o cheque pré-datado, ainda sem fundos, e o veículo segue o seu
caminho, levando a vida no seu baú de 6 metros, empanturrado de histórias
encaixotadas.
Mulher e filha, com bagagem para
uma semana de estada na casa da vovó, seguem para o interior de São Paulo.
Caminhada até a estação de metrô, duas linhas, terminal rodoviário, ônibus para
o interior. Está vazio. Que bom, pois a menina, no auge dos seus quatro anos,
não se aquieta em seu lugar. Repreendida pela mãe, por ficar “zanzando” no
corredor, retruca, debate, desobedece.
- Chega! Se o ônibus brecar, você
vai cair! Senta aqui e fica quieta.
Impedida de se mover, presa ao
banco pelo cinto de segurança, a garota se debate, chora, berra, inconformada.
A mãe tenta conversar, já desesperada com o bem estar dos demais ocupantes do
ônibus, cuja indiferença é tanta que explicita o incômodo. A menina não arreda
o pé. O escândalo se intensifica. A mulher silencia e ignora. Consegue abstrair
o choro. Quase esquece. Até que, lá na frente do ônibus, uma senhora negra se
levanta, e olha para trás com expressão de impaciência. A mãe a encara,
orgulhosa, não se intimida. A mulher faz um gesto de questionamento com a
cabeça.
Você não vai jogar a sua filha
pela janela? – Talvez ela queira dizer.
Como a senhora não desiste, mas
permanece calada em sua irritação questionadora, a mãe reage:
- O que foi? Criança chora, minha
senhora!
A velha se senta, mas não sem
antes soltar um leve grunhido de insatisfação. A mãe não perdoa:
- Eu sou uma cidadã, minha
senhora, tenho o direito de viajar com a minha filha em um transporte público,
se a senhora está incomodada, compre um carro!
Silêncio. A jovem mãe está só. No
seu pensamento não pode acreditar que uma mulher, velha e negra, alguém
triplamente vitimizada pela falta de justiça social, de cooperativismo, de
coletividade, possa ser tão terrivelmente individualista e cruel. A indiferença
dos demais passageiros lhe causa um nó na garganta. Não devia! Com a nova moda,
eles poderiam ter resolvido linchá-la por não ser capaz de manter a filha
calada... ficaram mudos, estrategicamente absortos em seus livros e smartfones.
Antes assim... não é?
A viagem já vai pela metade
quando a menina, que agora estava mergulhada em brincadeiras silenciosas – com
a graça de deus!, vira-se para a mãe com as bochechas infladas e a boca
travada. A mulher se desespera em busca do sempre presente saquinho plástico,
mas não há tempo, a garotinha lava o chão e alguns bancos do veículo com um
terrivelmente fedorento vômito!
O ônibus estava vazio, e ninguém
foi atingido pelo asqueroso jorro infantil! E como elas estavam sentadas
próximas ao banheiro, a mãe pode limpar tudo com apenas 34 pedaços de papel
toalha e 23 viagens entre poltronas e sanitário... tranquilo!
Enfim, chegaram! Enfim, estavam
acolhidas, na casa da vovó!
Deitada na cama de solteiro, do
quarto de hóspedes, na casa da mãe, ela sente um estranho sentimento de
abandono. A filha dorme quieta, num colchão ao lado da cama. Sentindo-se só e
angustiada, ela liga para o marido em busca de cumplicidade. Ele está ocupado.
Sozinho na casa vazia, ele tapa os buracos da parede com massa corrida. Buracos
dos quadros, espelhos, porta retratos, prateleiras, estantes. Buracos de prego
pra amarrar barbante de bexiga, buraco de gancho de rede pros amigos bêbados se
jogarem na madrugada, buraco dos cartazes e gráficos para a reunião sobre a
circulação de um espetáculo teatral pela Região Norte do Brasil, buraco de
cenário e luz fixados pelos cômodos para a apresentação de um experimento
cênico, buraco do cabideiro oferecido ao morador temporário. Buracos infinitos
a serem tapados. Lixa as paredes recortadas das mais diversas cores para poder
cobri-las de um cordato e inofensivo branco. Esticado sobre o último degrau da
escada de madeira, ele equilibra tábuas de 4,5 metros de comprimento e as prende ao forro do
quarto grande, sozinho. E depois do longo dia de trabalho, não será possível
tomar banho antes de se jogar no velho colchão de solteiro, torto de tantos
diferentes hóspedes que já acolheu. Não pode ligar o chuveiro, pois descobrira
uma infiltração no cano do ralo do box, e precisou quebrar tudo para arrumar...
Ele até tentou procurar um hotel, lá por perto, já que não tem carro, mas o
máximo que encontrou foi um motelzinho fuleiro, que não tinha vaga... talvez tome um banho frio na pia, se resistir
ao frio da noite paulistana.
Ela desliga o telefone e está pior. Resolve
fumar um cigarro antes de dormir. Vai até a garagem e recosta-se no portão para
observar a rua. São pouco mais de 23h e durante todo o tempo que ela permanece
lá, nenhum passante. Nem a pé, nem de carro. Sente uma nostalgia adiantada de
ser paulistana. Pensa nas ruas do (já não seu) bairro, sempre movimentadas: os
que vão e vem do trabalho, os que chegam e partem da academia, os que caminham
até a padaria, os que correm ao supermercado antes que feche e os muitos que
passeiam, despreocupados, com seus cães. Assim é um típico bairro paulistano
por volta das 23h. Foi-se o tempo que, nas cidades do interior, as pessoas
sentavam em cadeiras na calçada para papear e ver o movimento. Estão todos
fechados atrás de grades e muros altos, protegidos por cercas elétricas. Em São
Paulo, paradoxalmente, é mais possível cruzar com o vizinho e
falar sobre o tempo seco e a terrível tragédia que matou o presidenciável. Mesmo que não se possa pedir um chuveiro
emprestado...
Volta para a cama e lá permanece,
acordada, por longas horas. Imaginando o desconforto do marido. Sentindo-se um
pouco sem sentido por estar tão longe. Quase não entende os porquês desse
momento estranho. Ele lá, sozinho, reformando a casa toda, sem ter um pouso confortável ou um chuveiro quente. Ela tendo que partir com a filha,
para quase 300 km de distância, pois já não há lar em São Paulo...
Aquela casa, agora vazia, foi o
sonho utópico de um lar estendido. Foi um investimento de fé em uma
sociedade comunitária, em que a preocupação com o outro não se manifesta
através dos textos postados nas redes sociais, mas no cotidiano carnal. Na
vida de todo dia. Na porta sempre aberta, na comida feita com as mãos e
oferecida ao irmão, na hospedagem do amigo sem pouso, no encontro para fazer
pão, para fazer telhado, para fazer peça de teatro.
Pensando nisso, ela sonhou
acordada. Sonhou que estava em uma grande cozinha, cercada de enormes panelas
e, em parceria com outras mulheres, preparava uma refeição coletiva, enquanto
as crianças brincavam juntas no gramado, as mais velhas cuidando das mais
jovens, e os homens, em mutirão, reformavam uma casa colorida.
PS - esse post devia vir acompanhado de fotos dos inúmeros encontros que aconteceram na Rua Assungui, 150, nos últimos 5 anos, mas descobri, vasculhando infinitos álbuns digitais, que momentos felizes não são fotografados...