Estou triste.
Não uma tristeza profunda, intensa, por motivo específico e avassalador.
Uma tristeza boba, sem sentido, mais um cansaço do que uma tristeza verdadeira, enfim, um sentimento vago, que talvez nem seja digno desse nome cheio de significados: "tristeza".
Não tive nem coragem de desligar a TV para escrever esse texto.
Estou com um pouco de dor de cabeça. Pode ser o frio súbito nessa cidade tão fria, mesmo no calor. Pode ser o fato de ter tido uma alimentação nutritiva e balanceada ao longo desse dia frio: pastel e refrigerante. Talvez seja de saudade do meu amor e solidão, essa solidão esquisita... a ausência do homem deixa a mulher em um supenso e permanente estado de espera. Não me sinto capaz de fazer nada, só de esperar. Quando ele chega eu volto ao normal. Mesmo que mal nos encontremos. Só a presença dele em casa, ainda que a gente brigue, me permite lavar a louça, cuidar das roupas, responder aos e-mails...
Dia desses conversávamos, como tantas vezes, sobre as questões relativas ao feminino e ao masculino. Sempre que conversamos sobre tais questões defendemos os nossos gêneros, e acabamos brigando. Achei bonito algo que falamos, que o masculino tem por princípio mítico o gosto pela aventura, enquanto que o feminino sabe esperar. Concordamos sobre isso. Os filmes e outras formas de arte (ou de narrativas) contam histórias de aventuras, não contam histórias de espera. Aventurar-se foi se tornando algo mais valoroso do que esperar. Os filmes e as outras formas de arte ou de narrativas foram por muito e muito tempo feitos por homens e, por isso, falam de homens, sob o ponto de vista do masculino.
Discordamos sobre um ponto que para mim é fundamental: em algum momento da história as características do princípio feminino foram rebaixadas pela sociedade - regida pelos homens - em relação àquelas que caracterizam o princípio masculino (o que, certamente, foi reforçado pelos filmes e outras formas de arte ou de narrativas). Ao mesmo tempo, os homens exerciam poder sobre as mulheres, e essas eram oprimidas na sua condição e obrigadas a exercerem, exclusivamente, as atividades tidas como femininas, para servirem aos homens, mesmo que tais atividades se tornassem cada vez mais inúteis sob o ponto de vista social e, talvez, por isso, cada vez mais desinteressantes para as próprias mulheres. Assim, quando tiveram a liberdade para escolherem se queriam continuar na sua posição de mulheres-oprimidas ou passarem a agir como homens-opressores, elas, obviamente escolheram a segunda opção, já que não havia a possibilidade de se continuar sendo mulher e se livrar da opressão associada a essa condição.
Mas eu discordei de algo que achei interessante: com a guerra as mulheres foram obrigadas a ocupar as funções sociais que eram exercidas pelos homens. O corpo feminino se viciou ao movimento frenético da máquina. Quando, anos depois, a mulher pôde se ver livre dessa obrigação masculina do trabalho, já não conseguia se manter em conexão com o princípio feminino do "permanecer", precisava "ir", também ela, mesmo sem um... "chamado mítico", digamos assim. E, por outro lado, não se desligou totalmente da sua condição primordial de mãe-geradora-cuidadora. Por isso, desenvolveu uma certa esquizofrenia, que foi se perpetuando através das gerações.
Enfim, fodam-se os discursos, as teorias, os embasamentos de qualquer ordem! Foda-se o policitamente correto contemporâneo que obriga todas as mulheres a serem seguras, independentes e bem sucedidas profissionalmente, ou a pelo menos afirmarem que são tudo isso. Eu sou uma histérica: totalmente dependente do meu homem e, ao mesmo tempo, incapaz de relaxar e me jogar em seus braços fortes e deixá-lo me levar para onde quiser! Sempre sentindo-me previamente culpada por qualquer atitude que venha a destruir a minha imagem de indivíduo individualmente reconhecido pelos meus méritos individuais!
P.S. - Perdoem esse texto confuso, sem qualquer preocupação formal, que começa como diário de adolescente, passa por uma tentativa séria de conceituação filosófica ou social sobre os princípios feminino e masculino e chega em algo próximo a um manifesto histérico anti-feminista... é o deslocamento do meu feminino, que não sabe esperar nem tampouco ignora a ausência!