terça-feira, 13 de dezembro de 2011

...é que os desafinados também têm um fígado!

Tenho o hábito de dizer que já não cultivo o desejo de ser um gênio. Isso porque o cultivei, por muito tempo, durante a minha adolescência, enquanto ainda havia tempo hábil para a minha pretensão se concretizar, mesmo que já não houvesse indícios para se crer em tal possibilidade.
Hoje os indícios continuam ausentes e agora também já passei da idade da manifestação dos dons divinos. Tornei-me, enfim, uma mortal!
Porém!, não posso deixar de reconhecer que essa resignação à normalidade é apenas uma forma de não me tornar patética aos olhos dos outros. Dentro de mim sufoco o desejo de ter reconhecido o meu talento inegável! Eu me acho mesmo o máximo e olho para a massa medíocre de cima da minha indefectível pretensão!! Aguardo, silenciosa e humilde, o dia em que a minha obra será reconhecida!



Tenho pensado que o meu desejo de me tornar "uma mulher" está diretamente ligado à minha necessidade de suportar o fracasso (entendido numa perspectiva masculina, ou seja, o não reconhecimento público pelas ações realizadas no âmbito sócio-político-cultural).
"Uma mulher" não tem ambições de reconhecimento fora do âmbito do seu próprio lar. Sua busca é ser admirada por seu marido e seus filhos e o sucesso deles é a única prova de que sua missão no mundo foi cumprida com êxito. E na perspectiva do princípio feminino não há um tom irônico nessa afirmação e não há qualquer frustração quando não se associa o sucesso do marido ao sucesso da esposa, pois tal associação é pleonástica: o sucesso do marido é o sucesso da esposa!
A mulher que busca o reconhecimento de outros além daqueles a quem deve servir iguala-se ao homem, rouba a sua função, e passa a competir com ele, tornando-se uma ameaça.
As estruturas sociais são organizadas de modo a funcionarem quando todas as funções são preenchidas e realizadas com afinco: se o fígado resolve ser coração, porque ser coração é mais importante do que ser fígado, o organismo morre!

A família é um organismo! Portanto todas as funções precisam ser exercidas para garantir a sua sobrevivência. Se essa afirmação soa careta no nosso mundo moderno, temos que nos tornar modernos de fato, e extinguir a família! Se não somos capazes, temos, então, que evoluir ao ponto de garantirmos a manutenção das funções para a sobrevivência do organismo, sem confinar nenhum indivíduo à função que lhe foi determinada por associação biológica ou social; antes, temos que permitir um acordo tácita e profundo, em que todos se revezem generosamente na realiazação das funções, sem nunca hierarquizá-las, usufruindo da dor e do prazer de cada uma delas.


Eu sou um fígado que deseja também ser coração e preciso morar num organismo em que o coração aceite, vez ou outra, descer para o estômago!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Atrás de uma mulher resignada há sempre um homem admirável e doente!

Outro dia estava assistindo a uma entrevista que a filha da Baby Consuelo deu para o Amaury Jr. e para a Maria Cândida e ouvi algo muito sábio saindo da boca da religiosa - que o desejo sexual da mulher está totalmente atrelado à admiração que ela tem pelo homem!
Isso é a mais pura verdade! Claro que nesse mundo masculino de hoje, em que as mulheres adquiriram o maravilhoso direito de agirem como homens, muitas são adeptadas do "uma noite e nada mais", mesmo que isso destrua a sua auto estima (e aqui, o velho parênteses: ainda que seja repetitivo, acho que vale lembrar que, como sempre nesse blogue, estou fazendo uma generalização, que não exclui o direito de algumas ou muitas mulheres manifestarem, individualmente, um desejo sexual masculino, de fato!).
Não sei o quanto a admiração de um homem pela sua parceira interfere no seu tesão, mas para as mulheres ela é fundamental! Acho que é algo ligado a um recurso biológico usado na escolha do procriador ideal...

Por outro lado, em aparente contradição, a mulher tem um desejo estranho, eu diria até, arquetípico, de "curar" o homem! A maoria das mulheres gosta dos canalhas, não porque goste de apanhar (ou não só por isso), mas porque acredita que será aquela que finalmente corrigirá o terrível gosto pela poligamia que o rapaz cultiva há anos. E para isso, pode se submeter a tudo!
Na minha adolescência, quando me apaixonava por uma canalha incorrigível e não era capaz de ser a sua única amada, passava horas imaginando que ele sofreria um terrível acidente e ficaria paraplégico, e eu me tornaria sua fiel cuidadora, aquela que nunca o abandonaria, que sacrificaria juventude e beleza ao amor de sua vida, tendo enfim o reconhecimento merecido!

E os depressivos, então? Esses são os primeiros no racking do apaixonamento feminino.  Não qualquer depressivo, é claro, os mais populares são os depressivos intelectuais, aqueles que se acham uns bostas enquanto o resto do mundo os admira! - Até porque o já citado recurso biológico mantém longe os fracassados!
Na escola, quando eu estudava os românticos nas aulas de literatura, sempre cultivava uma fantasia insana de ser aquela que permaneceria ao lado de Álvares de Azevedo! A musa concreta que tornaria rosadas as sua bochechas pálidas e impediria a sua morte prematura!

... E ainda hoje, agora através de coisas mais concretas talvez, sonho em ser aquela que se resignará às trevas até tornar-se capaz de curar a dor lancinante que corroe o espírito iluminado do meu gênio incompreendido.

Toda mulher guarda em seu DNA o desejo ancestral de se resignar ao seu homem! De ser a anônima por trás de um grande Homem! Aquela que suporta tudo, sozinha, cuidando da casa e dos filhos enquanto seu guerreiro errante conquista mares longínquos - sejam eles reais os metafóricos!