O que uma mulher deve fazer quando leva uma cuspida na cara do seu homem?
Quando ela apanha, o mundo politicamente correto a guia, com objetividade, para um único lugar: a delegacia da mulher! E é o fim da relação, é claro!
Uma mulher esclarecida não permite ser tratada como uma qualquer! Nenhuma relação saudável pode chegar à pancadaria! (Pelo menos não de forma escancarada!) Uma mulher que se preze expulsa o canalha que lhe dá uma bofetada, sem grandes sofrimentos! (Mas quem sabe, se ninguém ficar sabendo... O que não tem testemunha, deixa de ser pecado - já disse alguém mais sábio do que eu, que é autor também de uma outra frase, ainda mais célebre!)
Mas e quando a agressão é uma cuspida!?
Um homem que cospe na cara de uma mulher está querendo dizer: "sua vagabunda! não vou perder o meu tempo e a minha energia batendo em você!" ou "isso aqui é pra eu não te encher de porrada!!!"????
A segunda opção isenta a moça de ter que tomar uma providência! E assim, a cada dia que passa mais casais "civilizados" vivem, entre quatro paredes, longe das testemunhas, como favelados do cinema nacional, enquanto criticam a barraqueira da esquina que se entrega aos tapas do marido, indiferente à (ou estimulada por?) audiência decorrente.
Não sei se viver junto, à moda antiga, tentando constituir uma família é mais difícil hoje, quando tudo nos chama ao consumo e estamos sempre querendo viver o novo e temendo perder algo se ficarmos muito tempo em um único lugar, ou se, simplesmente, o ser humano é absolutamente incapaz de lidar com a evolução da própria espécie que, diga-se de passagem, é o maior erro já mantido pela seleção natural (se é que, em escala de tempo cósmico, fomos mesmo "mantidos"... talvez esse átimo de tempo em que permanecemos, é apenas uma rápida passagem de uma espécie que será dizimada sem deixar resquícios!).
Desde que fui convencida pelo Nietzche e sua frase de agenda "cool" de que "o homem é uma corda atada entre o animal e o além do homem, uma ponte sobre o abismo", achava que a maior das evidências desta máxima era o fato de sermos, concomitantemente, animais e humanos, enfim, conscientes do nosso fim, da nossa jornada para a morte, capazes de simbolizar a vida, entender que "do pó viemos e ao pó retornaremos" mas, ao mesmo tempo, mesquinhos e apegados, ao ponto de usarmos nossa capacidade poética para criarmos mitos e religiões que legitimam a infinitude do indivíduo, garentem que o "eu" viverá para sempre, sem nunca se livrar de sua precariedade humana, sem nunca ser premiado com o reencontro com o todo.
Hoje, porém, acho que essa é só a interpretação mais literal da frase. Percebo algo mais sutil: a incompatibilidade entre os opostos! A existência de fêmeas e machos no mundo animal nunca foi nem será um problema, ao contrário, é o que garante a continuidade das espécies! Entre os homens será a maior e, quem sabe definitiva, guerra!
Tentamos, por anos a fio, evitar o colapso mantendo muito bem designadas as funções masculinas e femininas. Punindo aqueles que se desviassem da sua missão de macho e fêmea no cuidado com a família e com a sociedade. Estendemos um pouco a nossa permanência sobre a terra. Mas o inevitável se deu: o humano se sobrepôs ao animal e não quisemos mais nos manter presos às funções sociais que fossem coerentes com a nossa fisiologia. O biológico vai se esfarelando sob o poder avassalador da tecnologia.
A auto-preservação está tentando uma última cartada: pela primeira vez na história da humanidade, a elite intelectual, os que comumente movem revoluções, estão a favor do regresso, ou do "retorno" -para ser mais poética. Mulheres de saias floridas e sutians coloridos com alças à mostra lutam pela preservação de valores antigos, pela religação com a natureza, pelo consumo consciente e pelo parto natural.
E a medicina vai tirando do corpo a única coisa que ainda mantém os humanos amarrados a sua condição de bichos: a obrigação de gerar a continuidade da espécie. E a massa social vai se misturando: meninos e meninas iguais, seres andróginos e afetivos em grupos homogêneos, morando com os pais até os quarenta e sem qualquer pretensão de perpetuar a espécie.
É breve o momento em que nem vontade poética nem obrigação biológica levarão à mulher a gerar um filho. A cena futurista já pode ser vislumbrada no horizonte: bebês em incubadoras flutuantes em uma sala branca e asséptica. E, como consequência, em alguns milênios - se depender de mutações genéticas - ou em poucas centenas de anos - com a ajuda da medicina - nos livramemos desse incômodo possivelmente fatal à humanidade que é a existência dos gêneros.
Nesse tempo, em alguma isolada comunidade de intelectuais revolucionários, viverão famílias de casais heterossexuais, cheias de filhos nascidos de parto natural, pregados aos peitos de suas progenitoras. As quais prepararão a comida, modelararão cerâmicas, tecerão casacos, cuidarão das hortas, dos doentes e dos problemas sociais da comunidade, enquanto esperam seus homens voltarem da caça ou das construções de diques e conjuntos habitacionais sustentáveis, para servirem a janta e re-discutirem a relação, na busca incansável por garantir as funções de cada um! Nas noites mais quentes, as brigas podem ter direito a sexo de reconciliação e uma ou outra cuspida na cara, quem sabe até uma bofetada! Mas tudo sob a proteção de privativas paredes de caixa de leite e telhados que ajudam no combate ao aquecimento global.