Sempre me acontece uma coisa... mas a frequência ainda não me ensinou a deixar de lado a pretensão!
Eu tenho ideias, sabe... e quando essas ideias encontram ressonância em ideias alheias, elas crescem e se agigantam (e devoram o meu auto senso crítico...)! Como agora, nessa pesquisa "Deslocamentos do Feminino"... as minhas ideais sobre o feminino estão fervilhando... uuuuuuuuh! Com a parceria das meninas que compartilham comigo esse espaço de investigação cênica, elas estão em ebolição!
E aí eu fico achando que estou tendo pensamentos inéditos e que precisam ser presenteados ao resto do mundo, até que... BOFF! LEONARDO BOFF! na minha cara!
Tudo bem, depois que passa a vergonha acho até graça e depois fico até feliz por ter minhas ideiazinhas legitimadas por um pensador de tamanha grandeza!
Seguem dois trechos que dialogam diretamente com o texto deste blog que leva o título do mesmo; mas o livro inteiro vale a pena! (fora a bibliografia utilizada, que dá vontade de ler tudo!)
O livro é "Feminino & Masculino - Uma nova consciência para o encontro das diferenças", do já citado pensador juntamente com Rose Marie Muraro (Editora Record) e foi-me presenteado pela Maria da Glória... quer dizer, eu me apropriei dele e ela, por gentiliza, abriu mão do volume todo amassado, grifado e rabiscado (participação especial da minha filha, Pietra Maria). Ainda assim, foi um presentão!
E enfim, o trecho que interessa:
"Hoje, elas (as mulheres) trazem para o sistema produtivo e para o Estado algo radicalmente novo. Foi apenas o homem que se tornou competitivo, porque se destinou ao domínio público. A mulher no seu domínio privado conservou os valores de solidariedade e partilha. Milenarmente ela tem sido educada para o altruísmo e o cuidado, pois, se o bebê não tiver à sua disposição alguém completamente altruísta, ele não dura um dia sequer.
Atualmente, a mulher é quem traz os novos/arcaicos valores simbólicos de solidariedade da família para o sistema produtivo e para o Estado. Desta forma, a entrada da mulher no domínio público masculino é condição essencial para reverter o processo de destruição." (pg. 11)
e...
"Observemos atentamente: não dizemos que o homem realiza tudo o que comporta o masculino, e a mulher, tudo o que expressa o feminino. Trata-se aqui de princípios presentes em cada um, estruturadores da identidade pessoal do homem e da mulher. O drama da cultura patriarcal reside no fato de ela ter usurpado o princípio masculino somente para o homem, fazendo com que este se julgasse o único detentor da racionalidade, do mando e da construção da sociedade, relegando para a privacidade e para as tarefas de dependência a mulher, não raro considerada apêndice, objeto de adorno e de satisfação. Ao não integrar o feminino em si, o homem se enrijeceu e se desumanizou. Por outra parte, o patriarcado identificou o feminino com a mulher, impedindo-a de uma realização mais completa, com a inserção do masculino e dos seus valores no seu processo de personalização e socialização. Ambos se depauperaram antropologicamente e mutilaram a construção da figura do ser humano uno e diverso, recíproco e igualitário. Mas muito mais padeceram as mulheres sob a opressão dos homens e as suas formas de crueldade inimagináveis [...].
[...]
O movimento feminista mundial, por um lado, colocou em xeque o projeto do patriarcado e desconstruiu as relações de gênero, organizadas sob o signo da opressão e da dependência, e, por outro, inaugurou relações mais simétricas entre os gêneros." (pgs. 73 e 74)
Sobre o diálogo com o texto citado deste blog, só acho que vale ressaltar, correndo o risco de ser redundante, a opinião desta blogueira (nossa!). O patriarcado relegou a mulher ao privado mas, principalmente, encarcerou o princípio feminino, tido como desnecessário e até prejudicial à sociedade. E o movimento feminista, em vez de lutar para que este princípio fosse restaurado à e revalorizado na sociedade, passou a lutar pelo direito da mulher de, como o homem, ser composta integralmente do princípio masculino em detrimento do feminino, e aí então que a sociedade se masculinizou de vez.
Se hoje a mulher ainda é capaz de ser a detentora do feminino e assim contaminar o sistema produtivo e o Estado desse princípio é só quando ela, individualmente, consegue ir contra todo um preconceito social estabelecido que vê o feminino como algo pejorativo, inclusive nas mulheres, em especial quando elas estão ativamente no mercado de trabalho.
ps - o grifo em vermelho é meu e foi em homenagem aos meninos, nossos novos parceiros de trabalho, em especial ao Daniel (Ribeiro), ao Rafael, ao Matheus, ao Lucas e ao Marcelo... (rs)